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Algumas leituras que me forjaram a personalidade

  

Rubem Alves, teólogo, professor, filósofo da Educação e escritor, dizia que era o que era pelos autores que devorou e se escrevia era na esperança de ser devorado pelos seus leitores. Ele, aliás, não apenas o dizia, escreveu, por exemplo, na crônica “A beleza dos pássaros em voo...”, uma das que compõem o livro Na morada das palavras. Transcrevo: “Eu mesmo sou o que sou pelos escritores que devorei... E se escrevo é na esperança de ser devorado pelos meus leitores.” As reticências, em ambos os lugares, são originais, esclareço. Questão de estilo.

 

Algumas leituras me forjaram e continuam moldando a personalidade, pois somos aquilo, bom ou ruim, de que nos alimentamos. A Bíblia é, sem dúvida, a principal delas. No entanto, três livros que li nos anos 1980, dos 23 aos 26 anos de idade, marcaram indelevelmente minha formação, maneira de ser e visão de mundo e do ser humano em particular: Batismo de sangue: guerrilha e morte de Carlos Marighella, de Frei Betto; Memórias, de Gregório Bezerra; e Aracelli, meu amor, de José Louzeiro. Não sei explicar como nem por que, mas essas leituras marcaram profundamente a minha vida. Aliás, talvez eu saiba, mas não preciso dizer.

 

O Batismo de sangue e as Memórias foram lidos em 1983, em São Geraldo do Araguaia, aos 23 anos de idade, quando me foram emprestados por uma colega de trabalho que se tornaria amiga de toda a vida, Maria Oneide Costa Lima, filha do então Vice-Prefeito de Xinguara, Pedro Ferreira Costa, o Pedro Barreira (éramos servidores do município). O terceiro, Aracelli, meu amor, foi lido no primeiro semestre de 1986, já em Xinguara, para onde fora trazido de volta pelo Prefeito Itamar Rodrigues Mendonça. E, anos depois, compraria, em novas edições, os dois primeiros, que guardo com muito zelo.

 

Existem, contudo, inúmeras outras obras de cunho semelhante ao dessas que li naqueles anos, bem como antes e depois deles. À guisa de exemplo, posso citar os livros Lúcio Flávio: o passageiro da agonia, também de José Louzeiro,  Prisioneiro sem nome, cela sem número, de Jacobo Timerman, lido em 1983; Quem “suicidou” Juca Valente? (o crime que abalou a Bahia), de José Carlos Baleeiro, lido em 1986; O homem sem espaço, de Orlando Lodi; Sinal de vida, de Lauro César Muniz; O incêndio, de Jorge Andrade, além, evidentemente, de muitos outros.

 

De clássicos ou não da literatura brasileira, lembro-me como obras marcantes da minha vida, dentre outras, Dom Casmurro, Memórias póstumas de Brás Cubas, Helena e A mão e a luva, de Machado de Assis; O sertanejo, A viuvinha, Cinco minutos, Senhora e Lucíola, de José de Alencar; O marido da adúltera, de Lúcio Mendonça; Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco. E, embora não seja um clássico nem seja da literatura brasileira, não posso deixar citar A madrasta, de Nancy Thayer. Ainda de Machado de Assis, também as crônicas. Ele foi um exímio cronista.

 

Paro por aqui. Escrevi de memória, a qual me pode, naturalmente, ter traído. Mas foi apenas um breve inventário de leituras, o qual, a bem da verdade, nem sequer pensava em fazer ao iniciar a crônica. Ao começar, pensara mesmo e tão somente em dizer que fiquei profundamente emocionado ao ler ontem, 12 de agosto de 2026, o parecer do Conselho Editorial da Editora Dialética sobre o original do meu livro de crônicas O tira na cabeça e outras formas de repressão: ouvir a própria voz e ver através da janela. Li e reli, confesso. Mas não era só isso. Queria dizer também que, emotivo, não consigo reler Memórias, de Gregório Bezerra, tampouco consegui terminar a leitura de Parte da minha alma, de Winnie Mandela. Tentei algumas vezes, mas não consegui. Talvez ainda consiga.

 

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 13/08/2026


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