Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

Flande, folha de flande

 

Sessão nostalgia. “A língua é como um rio: sem margens, desaparece”, bem disse o jornalista e escritor português João Carreira Bom. É lógico que existem vários outros fatores que concorrem para o desaparecimento de uma língua. Eu, contudo, concordo com ele e acrescento que é por isso que existe a gramática normativa, não raramente incompreendida e até odiada por muitos. A língua, porém, é viva e dinâmica, e não é somente gramática. Isso, todavia, é outra história. Gosto por isso de relembrar palavras e expressões dos meus pais, parentes e amigos dos tempos que vão da minha infância à juventude, na zona rural, as quais se vão distanciando, sendo esquecidas.

 

Com efeito, de-comer e tantas outras palavras e expressões de que me lembro aqui e acolá são brasileirismos e, às vezes, regionalismos. Coisas mesmo bem nossas. Flandre, por exemplo. Naquele tempo, as latas de óleo comestível eram de flandre. Os carrinhos artesanais de brinquedo e as lamparinas, também. Os tempos, porém, mudaram muito. Vieram os avanços científicos e tecnológicos com mudanças em quase todos os sentidos, ora para melhor, ora não. Hoje, a quase totalidade do óleo comestível é comercializada em vasilhame de plástico. Imagino, além disso, que as crianças pobres, como eu era, já não brincam com carrinho artesanal de flande, como eu e meus irmãos brincávamos com os carrinhos que, habilidosamente, nosso pai, João Belizário de Souza, fazia.

 

De quando me lembro, o plástico, que nós chamávamos de matéria plástica, quase não existia. Comum mesmo eram os tecidos, a estopa, o vidro e o flandre ou, como diziam as pessoas mais simples, flande ou, ainda, frande. E, evidentemente, em vez das sacolas plásticas, que poluem o ambiente, são prejudiciais à saúde, entopem bueiros e causam males terríveis até aos animais marinhos, era o papel de embrulho, que era biodegradável e, mais do que isso, inofensivo ao ser humano e aos animais. As mercadorias, ainda me lembro bem, eram embrulhadas com papel. Hoje, só papel de presente, e olhe lá.

 

O óleo comestível industrializado era de coco-babaçu, colhido artesanalmente no Norte e no Nordeste. No interior do Pará, não sabíamos o que era soja. Nem sequer ouvíamos falar. Depois, foram surgindo o óleo de soja e os outros bem conhecidos atualmente. O óleo de coco-da-praia ou coco-da-baía e o azeite de oliva, certamente já existiam no Brasil, mas também era inteiramente desconhecidos para nós, no interior da Região Norte, de onde só saí, muito raramente, a passeio ou a trabalho. Agora, não: são muito comuns e acessíveis em qualquer supermercado o azeite de oliva de várias marcas e os vários tipos de óleo vegetal comestível, também de várias marcas.

 

Naquele tempo, os alimentos eram temperados com óleo de coco-babaçu ou com gordura de porco, geralmente extraídos artesanalmente em casa. Aliás, o óleo de coco extraído em casa era chamado de azeite de coco. Havia também o óleo de coco industrializado, mas, por questões financeiras, era luxo e, assim, consumido por pouca gente. Demais disso, havia também a questão da preferência desta ou daquela família, ora pelo azeite de coco-babaçu, ora pela gordura de porco. Não dizíamos banha, era gordura mesmo, ou seja, a designação genérica. Minha mãe, dona Antônia Monteiro de Souza, era uma exímia quebradeira de coco-babaçu e tiradeira de azeite.   

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 13/07/2026


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