Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

Misossofia

 

Começo com o poeta e pensador inglês John Mayra Donne: “Que nossos afetos não nos matem nem morram.” Pois é. Afeito à gramática, gosto de etimologia. Quem me lê os escritos sabe disso. O de que eu não me lembrava era da crônica “Leitura da barba”, de Otto Lara Resende, publicada em 12 de agosto de 1992, que li já faz alguns anos. Foi publicada na Folha de S. Paulo e depois no livro Bom dia para nascer, que, todos sabem, gosto de citar. A crônica fala de etimologia, assunto de que Otto também gostava. Tinha amor à língua e vivia do escrever.

 

Um dia desses, bem recentemente, falei de aporofobia. Para quem não se lembra, na crônica “Aporofobia, a abjeta aversão ao pobre”, publicada no dia 2. Você não leu? Puxa vida, leia! E, por favor, comente. Voltando ao assunto, lá vai mais etimologia! Saiba que misossofia existe. Está registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, e, claro, é dicionarizada. Significa “ódio ao saber, à ciência”, na definição do Aulete. Ódio, horror, aversão, eu acrescento.

 

Otto Lara Resende, bem humoradamente, começa a crônica dizendo: “Nada como a etimologia. Você vai à origem da palavra, à sua fonte, e ela se ilumina. É como abrir um brinquedo e ver como ele funciona. Hoje ninguém dá bola para a gramática histórica. Fala-se por paus e por pedras.” E, com humor e elegante ironia, ele segue até falar em misossofia, que define como horror ao saber. Etimologicamente, explico, misossofia vem do grego μῖσος (misos), ódio, aversão, horror; e σοφία (sophia), sabedoria, saber, conhecimento.

 

Muitos não sabem, mas misossofia é, etimologicamente, antônimo de filosofia, que, como se sabe, também vem de duas palavrinhas gregas: φίλος (philos), amor, amizade; e σοφία (sophia), cujo significado foi dado no parágrafo anterior. Acho visualmente lindas as palavras em grego, mas sei, evidentemente, que muitos não gostam e até se chateiam com esse meu gostar. Não gostam de grego, não gostam dessa história de etimologia de sei lá o quê nem desse visual das palavras a que me referi. Mas é assim mesmo. Não sei se felizmente ou infelizmente. Fazer o quê? Nem vou lembrar aqui que gosto não se discute.

 

Por falar disso e para encerrar esta cronicazinha, talvez sem gosto e sem graça, compartilho com o leitor que estou lendo, já faz alguns dias, o livro Os quatro amores, de Clive Staples Lewis, cujo nome literário é C. S. Lewis. Aliás, já dava para ter concluído, mas eu tenho o hábito de ler vários livros de uma vez. Pensava até que fazer isso era errado, mas já fiquei sabendo que não é. A gente pode ler mais de um livro ao mesmo tempo, bem como começar a ler de onde quiser, do meio, do fim, do começo. Se você, como eu tem esse hábito, não se preocupe. Boas leituras! Em Os quatro amores, C. S. Lewis trata das quatro palavras gregas para amor. Isso, contudo, fica para outra crônica. Ou não.

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 09/07/2026
Alterado em 17/09/2026


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