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Deixe de lero, você fala grego e não sabe

  

Na gramática da educação básica, quer dizer, no ensino fundamental e no ensino médio, o aluno brasileiro estuda os afixos gregos e latinos que são empregados na formação de palavras da língua portuguesa. Principalmente, os prefixos. Para quem não se lembra, são afixos os prefixos e os sufixos. O português, como se sabe, é uma língua neolatina – aliás, a caçulinha delas, daí ser chamado de a última flor do Lácio –, e tem por isso um sem-número de palavras formadas de afixos latinos e gregos. Mas não é só isso. Existem, além dos prefixos e sufixos, os casos de transliteração de palavras inteiras do grego para o português.

 

Muitos não têm a noção exata da influência do latim e o do grego na formação da língua portuguesa, influência essa que é muito grande. Principalmente do latim, já que o português, como dito antes, é uma das línguas neolatinas. É por causa disso a minha brincadeira com o título, “Deixe de lero, você fala grego e não sabe”. A ambiguidade, esclareço, é estilisticamente propositada. E, é lógico, o assunto, para a abordagem com a profundeza necessária, exige um artigo acadêmico. Eu, contudo, gosto de abordagens como esta, em crônica, por causa da leveza e do ar de simples conversa de entretenimento desse gênero. Nem só de assuntos triviais se escreve crônica.

 

O objetivo aqui é, pois, falar da palavra lero. Comumente, se diz lero-lero, como substantivo composto, mas existe também a forma lero, que alguns dicionários não registram. Lero é, dentre outros significados, conversa fiada. O Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, um dos que registra essa forma, diz que se trata de um coloquialismo e lhe dá esta definição: “Troca de ideias; conversa, bate-papo, papo.” Até aí, tudo bem. Intriga-me, porém, esse dicionário dizer que a etimologia da palavra é desconhecida, bem como outros dicionários dentre os consultados dizerem que a sua etimologia é controvertida.

 

Penso, rogada a máxima e devida vênia, que não é desconhecida nem é controvertida. Diferentemente da posição dos dicionários que consultei, entendo que a palavra portuguesa lero vem do grego λῆρος (léros), que já existia no grego koiné, falado e escrito, segundo os estudiosos, no período de 330 antes de Cristo a 330 depois de Cristo. Há registro na Bíblia. Para ser mais preciso, no capítulo 24, versículo 11, do livro do erudito evangelista Lucas, também escritor de Atos dos Apóstolos, a quem o apóstolo Paulo chama de Lucas, o médico amado, “Λουκᾶς ὁ ἰατρὸς ὁ ἀγαπητὸς” (Lucas ho iatròs ho agapetòs), em Colossenses, capítulo 4, versículo 14. 

 

Diz o capítulo 24, versículo 11, do Evangelho de Lucas: “E pareceram perante eles como que tolice as palavras delas, e não criam nelas.” No grego bíblico, esse texto está escrito assim: “Καὶ ἐφάνησαν ἐνώπιον αὐτῶν ὡσεὶ λῆρος τὰ ῥήματα ταῦτα καὶ ἠπίστουν αὐταῖς”, mas o que nos interessa aqui é a palavra “λῆρος”, que se pronuncia “léros” e foi aí traduzida como tolice. Sua transliteração em português é “léros”, e a tradução é disparate, tagarelice, tolice, loucura, delírio, palavra vã. É daí que penso vir a palavra portuguesa lero e seu significado. Ou seja, por mais paradoxal que isso possa parecer, não obstante hoje seja empregada como gíria ou coloquialismo, a palavra tem etimologia erudita.

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 04/07/2026
Alterado em 04/07/2026


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