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Aporofobia, a abjeta aversão ao pobre

 

 

Antes de ter, é preciso ser: a riqueza existe por causa do ser humano e não o contrário. Mas para um aporófobo, arrebatado por sua pequenez de caráter e sua cultura materialista, a essência do ser é ter: se alguém nada tem, nada é. Erich Fromm questiona e problematiza essa realidade, no seu livro Ter ou ser?, obra fundamentada no pensamento humanista. Convém lembrar aqui, além disso, que a filosofia tem um ramo específico dentro da metafísica, a ontologia, com o qual se ocupa da natureza e essência do ser, conquanto isso, evidentemente, tenha descomunal abrangência. Como ter sem antes ser?    

 

No campo existencial, ato é ação, atitude é maneira de ser. Ato é a atitude posta em prática. Em outras palavras, as atitudes de um indivíduo são a sua visão de mundo. Ou seja, segundo uma das acepções dadas pelo Aurélio, atitude é a reação ou maneira de ser em relação a pessoas, objetos, situações. Com efeito, boas atitudes produzem bons atos, o mesmo que boas ações. O contrário, evidentemente, também é verdadeiro. Aliás, nunca é demais lembrar, que isso é bíblico. A Bíblia diz, em Mateus, capítulo 7, versículos 17 e 18: "Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons."

 

No meio disso tudo, a aporofobia é uma atitude das mais abomináveis de um ser humano. Atos e atitudes aporofóbicos são incompatíveis com a dignidade da pessoa humana, tanto em relação ao agressor quanto em relação à vítima. Ser aporófobo é substituir, na mais profunda indignidade, a essência do ser humano pela essência das coisas. Não dá para aceitar pessoas aporofóbicas em pleno século XXI. Como conciliar o princípio da dignidade da pessoa humana com o desprezo – aliás, mais do que isso, a aversão – a uma pessoa simplesmente por causa da pobreza dela? Faz-se necessário, não resta dúvida, a tipificação penal da aporofobia.

 

Muitas pessoas ainda não conhecem a coisa pelo nome, dado que é um neologismo bem recentemente criado. Exatamente por isso, muitos lhe desconhecem o significado, não obstante existam milhões de vítimas dos seus efeitos. Há, por sinal, um livro cujo título aponta essa realidade, que é Aporofobia: você não conhece a palavra, mas conhece o sentimento, de Blandina Franco. Que é isso, então? “Repúdio, aversão ou desprezo pelos pobres ou desfavorecidos; hostilidade para com pessoas em situação de pobreza ou miséria”, diz a definição do verbete, na sessão sobre neologismos do portal da Academia Brasileira de Letras, que tem por título Novas Palavras.

 

A palavra aporofobia, que foi criada pela filósofa espanhola Adela Cortina, professora universitária de Ética e Filosofia, vem das palavras gregas ἄπορος (áporos) e φόβος (phóbos, de onde vem fobia). No grego, ambas as palavras têm vários significados, mas aqui, no contexto, áporos significa pobre, sem recursos; fóbos significa medo, pavor, repulsa. Aliás, um dos significados da palavra grega áporos é pessoa intratável. Andou bem, pois, a pensadora espanhola. Foi certeira na formação da dita palavra, a qual veio, com precisão, suprir uma lacuna e evitar o emprego indevido de outras palavras como, por exemplo, xenofobia.

 

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 02/07/2026
Alterado em 02/07/2026


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