Prefiro o talvez
Achei o máximo. E me lembrei da conversa, já faz alguns anos, em que uma colega advogada, referindo-se a si mesma, no meio de um assunto o qual já nem sei qual era, comentou: “Estudar cinco anos numa faculdade para, quando alguém perguntar alguma coisa, responder ‘depende’...” Claro, ela se referia à resposta que nós, advogados, quase sempre damos quando somos indagados sobre situações fáticas do mundo jurídico. Tem que ser assim, porque depende mesmo. O leigo não entende, mas tem que ser assim. Cuidado com as verdades de muitos por aí afora!
A resposta, na maioria das vezes, não por falta do saber, mas exatamente por causa do saber, tem que ser um “depende”, embora, no mundo pragmático das relações cartesianas, as pessoas queiram respostas objetivas, de sim ou não. Elas se esquecem de que, no universo das relações humanas como um todo, nem tudo é exato ou objetivo: quase tudo é subjetivo. No mundo do direito, que é uma ciência humana por excelência, pois o direito existe por causa do ser humano e não o contrário, prevalece o contraditório. Nem tudo é o que aparenta ser.
Depende. Quase tudo depende. De quê? Da prova, do contraditório, conforme o direito, que é imensamente mais amplo do que a lei. Não basta alegar, tem que provar. Não basta estar previsto na lei, faz-se necessário provar que se enquadra na lei. Não basta ter o direito, é necessário provar que tem o direito. Às vezes, a situação fática amolda-se perfeitamente à previsão legal, mas, se não for devidamente provada, de nada adiantará. É por isso que o processo, qualquer que seja o processo, sempre exige acusação e defesa. É por isso que a resposta é depende.
Fala-se muito na verdade, mas nem sempre se quer a verdade. Eis aí, talvez, o porquê de se dizer que a verdade dói. “Será que, por dizer a verdade, me tornei inimigo de vocês?”, diz o capítulo 4, versículo16, da Carta de Paulo aos Gálatas, na versão Nova Almeida Atualizada da tradução da Bíblia de João Ferreira de Almeida. Acredite, leitor, a pergunta de Paulo, feita do alto de sua autoridade apostólica, não foi meramente retórica. Ele sabia que eles não queriam a verdade. Nem tudo tem apenas uma resposta correta, independentemente da seriedade de quem responde. Depende.
Para fechar, de Pasquale Cipro Neto, em “Vezeiro, sicrano, supetão”, uma lição que não me cansa citar: “Em tudo na vida, a certeza quase sempre não passa de mero engano.” É por isso que eu disse que achei o máximo. O quê? A irônica, mas verdadeira, lição de Ruy Castro, nas duas últimas frases da crônica “A humilhação diária”, publicada na Folha de S. Paulo. Vale para o contexto e para muitas situações fáticas na vida: “Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.”
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 30/06/2026
Alterado em 30/06/2026