Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

O de-comer

 

De-comer. Muitos, decerto, pensam que essa palavra não existe. Outros talvez pensem que está errada ou sei lá o quê. Eu, nem uma coisa nem a outra, mas, sem perceber, deixei de usá-la. E, mais do que isso, de tanto tempo que não a ouço nem leio, havia me esquecido dela. Mas, como a esqueci involuntariamente, hoje resolvi falar dela, de-comer, o substantivo composto do título. Sim, ele é uma palavra nossa, do meu tempo de criança e adolescência, que está nos dicionários e na literatura. Não é coisa de cafona, é prova da riqueza de nossa língua.  

 

De-comer é a comida do almoço e do jantar. Era como chamávamos na casa dos meus pais. Pode, contudo, designar qualquer alimento. O que é comível, coisa de comer. É um brasileirismo e seu plural é de-comeres. Está registrado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, e em dicionários como o Novíssimo Aulete Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e o Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, por exemplo.

 

Meus pais, parentes e amigos a usavam. Eu e meus irmãos, também. Nem sequer sabíamos que existia a palavra refeição, era o de-comer mesmo. Mas, com o passar dos anos, no contato diário com as pessoas da cidade (creio, aliás, que não somente por isso, mas principalmente por serem oriundas de outras regiões do país), eu a esqueci. Só de vez em quando, ao buscar na memória o linguajar e os costumes daquele tempo, é que me lembro dela e de muitas outras palavras e expressões bem nossas que foram ficando para trás, caindo no meu esquecimento.

 

Além de relembrar, gosto de garimpar na literatura abonações delas, palavras e expressões da minha infância e adolescência. E, quando as encontro, penso logo em escrever uma crônica depois e, para isso, costumo anotar a palavra, com caneta vermelha, na margem superior da página, que fica lá. Lembro e esqueço, torno a lembrar e esquecer de novo, até que, enfim, um dia escrevo (como agora faço em relação a de-comer). Dou valor às abonações literárias. É uma das razões pelas quais tenho apreço por dicionários como, por exemplo, o Aulete e o Aurélio, que são ricos em abonações literárias de seus verbetes.

 

Assim, faz algum tempo, ao folhear Luzia-homem, de Domingos Olímpio, deparei a palavra de-comer, cujo registro anotei logo à margem superior da página, para facilitar a pesquisa posterior ou mesmo, como de vez em quando me acontece, encontrá-la sem estar procurando. Mas não foi só isso. Ao consultar o Aulete e o Aurélio, vi que ambos dão abonação literária do verbete. E, interessante, a abonação dada pelo Aulete é a mesma que eu anotara, de Luzia-homem. E a do Aurélio? É esta, de Veranico de Janeiro, de Bernardo Élis, obra que, honestamente confesso, ainda não conheço: “Com o cheiro do de-comer seu estômago roncava.”

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 23/06/2026


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