Recanto Literário

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Textos

Coisas da língua e o erro vicário

 

 

Já faz alguns anos (em 2014, para ser exato), censurou-me um amigo o adjetivo paraneico, que empreguei propositadamente na crônica “A lei e a consciência ecológica”, uma das 30 que compõem meu livro Revista e Jornal: crônicas escolhidas. Ele pensou que eu quisera escrever paranoico, mas, involuntária e inadvertidamente, escrevera paraneico. Antes disso, aliás, ele me tinha dito como amigo, em um dos nossos bate-papos: “Ah, doutor, a crônica ‘A lei e a consciência ecológica’, do seu livro, saiu com uns erros.”

 

Reli a crônica, com calma e atenção, mas não encontrei erros. Tive que aguardar encontrá-lo novamente, para lhe pedir que me dissesse quais eram. E, quando ele o fez, vi que se equivocara. Para ele, eu tinha errado duas palavras: paranoico, que eu escrevera paraneico, e manifesta, que pusera como adjetivo feminino, e ele pensara ter sido posta como verbo. Truncou tudo na cabeça dele. Aí, primeiro, eu tirei onda, é claro, e só depois expliquei que, no contexto, manifesta não era verbo, era adjetivo, e que a palavra paraneico fora escrita de propósito, para chamar a atenção de quem não a conhecesse, pois existem as duas formas, não obstante a que empreguei seja pouco usada.

 

Com efeito, em ambos os casos, ele se equivocara. Quem estava errado era ele. Empreguei propositadamente a palavra paraneico – que já era minha velha conhecida de alguns anos –, quando escrevi a crônica para o jornal marabaense Gazeta Viver Verde, jornal este que, mal nascera, deixou de circular. Aliás, com certa tristeza, falei dessa existência efêmera na apresentação do livro Revista e Jornal. Quanto ao amigo, é uma pessoa culta. Até hoje, não sei, sinceramente, por que razão ele cometeu tais equívocos.

 

Como eu disse, fiz de propósito, pois existem duas formas para o substantivo feminino do qual deriva o adjetivo: paraneia e paranoia (do grego παράνοια, que se translitera e pronuncia paránoia, pelo latim paranoea, que se pronuncia paranea). Eis aí, por conseguinte, a explicação para a existência dos adjetivos paraneico e paranoico. Aliás, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa afirma com outras palavras que paraneia, a despeito de pouco usada, é preferível a paranoia. De fato, dadas a grafia e a pronúncia da palavra no latim, é preferível mesmo a forma portuguesa paraneia.   

 

Pois bem, me lembrei do caso hoje e resolvi escrever. É engraçado isso. Essa não foi a primeira nem será, certamente, a última vez que essas coisas me acontecem. Escrevendo para jornal, já fui, mais de uma vez, vítima de erro vicário, ou seja, de hiperurbanismo ou ultracorreção. Volta e meia, alguém pensa que eu errei e vai logo lascando o que pensa ser a bendita correção. E aí, sim, erra no meu lugar, o que chamo de erro vicário. É claro que, sempre que isso acontece, fico fula da vida. 

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 19/06/2026
Alterado em 20/06/2026


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