A instigante crônica de Ruy Castro e o latim
“Em matéria de língua, o povo tem sempre razão e, quando ele adota uma palavra, não há o que fazer”, diz o imortal da Academia Brasileira de Letras Ruy Castro, na crônica “Eu resilo. Tu resilas? Ele resila”, publicada no jornal Folha de S. Paulo, edição de 21 de maio de 2026, também publicada no site da Academia. Gosto muito das crônicas de Ruy Castro e, como quase sempre, achei essa aí o máximo. Sou letrólogo, e a crônica fala de uma das minhas grandes paixões de toda a vida, a língua portuguesa.
Engraçado que o computador marca com o característico sublinhado vermelho a palavra letrólogo. Para ele, ela não existe. Bestinha, hein! Existe, sim. E eu faço questão de usá-la. Fiquei felicíssimo quando a amiga Joeilde Maria Teles, ao escrever o texto para as abas do meu próximo livro (O tira na cabeça e outras formas de repressão: ouvir a própria voz e ver através da janela), me chamou de “meu querido amigo Valdinar, advogado e letrólogo”. Não adianta, pois, senhor computador. Deixe de teima!
A querida amiga Joseilde Maria Teles (Josie, para nós, seus amigos e colegas) é nota 10, com elogios. Letróloga, pedagoga, historiadora, doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, dentre outros títulos, foi minha professora de várias disciplinas no curso de Letras – Português e Inglês, no Centro Universitário Senac de São Paulo, e sua amizade, que muito me honra e orgulha, nasceu dessa relação aluno-professora, por causa da admiração mútua decorrente de um gosto em comum: o amor aos estudos e, em especial, à língua e à literatura.
Volto, contudo, ao verbo resilir, de Ruy Castro, de onde vêm o adjetivo comum de dois gêneros resiliente e o substantivo feminino resiliência. Sim, o verbo existe, tal qual existe o verbo deletar. Eu deleto, tu deletas, ele deleta, nós deletamos, vós deletais, e assim por diante. O que, porém, me deixa encafifado e soa como um quase insulto é o fato de tais palavras, que vêm do latim, nossa língua-mãe, só se tornarem nossas conhecidas e – agora, mais do isso, íntimas – por causa de outro idioma, o inglês. Dessarte, a rigor, dizer ou escrever “eu deleto” jamais deveria ter sido considerado anglicismo, mas foi, porque se popularizou entre nós a partir do inglês delete e, não, do latim deletum.
Já conhecia a origem latina de ambas as palavras, isso não é novidade para mim. A conclusão a que chego, porém, e aqui ponho como reflexão é que o brasileiro e os demais povos de língua portuguesa precisam conhecer mais o latim para conhecer e aprender bem a língua portuguesa. O português veio do latim. Por que, então, não estudar o latim? Não tem história nem convicção quem renega a própria origem. Andou mal, muito mal, quem teve a infeliz ideia de abolir o estudo do latim na educação básica brasileira. Que pena!
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 23/05/2026
Alterado em 23/05/2026