Um lavrador que nunca brigou pela terra
Calça curinga, botinas de trabalho, espingarda Champion calibre 12 na mão, facão Collins de 22 polegadas na cintura e um paneiro (com machado, foice, roupas e mantimentos) nas costas. Foi assim que meu pai, João Belizário de Souza, por duas vezes, adentrou as matas de terras devolutas do Pará, para situar uma terra para si. Situar, na linguagem dele, era fazer uma roça e cercar (delimitar) com piques um terreno rural, dizendo que era seu. Fez isso nos locais que se tornariam, respectivamente, Vila São José e Canadá de que falarei mais à frente.
Lembra-me, evidentemente, o que disse Jean-Jacques Rosseau e eu citei na minha crônica “As terras que foram do meu pai”, mas o objetivo aqui é outro. Como eu disse na crônica “Meu pai e o seu matulão”, meu pai saiu da casa materna aos 17 anos de idade. Mas foi forçado pelas circunstâncias. O pai dele falecera deixando os filhos ainda muito pequenos, e minha avó contraíra, licitamente, novas núpcias. O marido, entretanto, era ruim demais para os filhos dela, razão por que meu pai, não por rebeldia, mas por não aguentar desaforos, achou por bem sair de casa. Sem eira nem beira, como ele dizia.
Ninguém conseguiu demover o menino, que, sensato e muito destemido, para evitar um mal maior, pôs a rede nas costas, deixou a mãe a chorar de tristeza, e caiu mundo adentro, sem destino certo. E chegou ao Pará, onde também não tinha destino certo, não sem antes trabalhar na lavoura para terceiros, no Maranhão, e nos garimpos mais famosos de Goiás na época: Garimpos do Tabocão e do Chiqueirão, hoje no estado do Tocantins. Triste sina a da minha vozinha: nunca mais veria o filho!
No Pará, não obstante gostasse muito de trabalhar, nunca se fixou na terra. Teve a posse de cinco pequenos terrenos rurais, mas – mais uma vez, forçado pelas circunstâncias – sempre se desfez deles. Não brigava pela terra. Quando qualquer vizinho criava problemas, ele, que não tolerava perturbação, para não atentar contra a vida de ninguém, arribava, com família e tudo: ia embora! Talvez tivesse, no íntimo, a convicção de que a terra é de si mesma e nunca pertence a ninguém. Com efeito, como pedra que muito rola não cria limo, ele jamais conseguiria juntar riqueza.
Teve a posse de terras na zona rural do povoado de São Domingos do Araguaia, então município de São João do Araguaia, duas vezes. Nos locais hoje conhecidos por Vila São José e Canadá. Sozinho, chegou ao local da Vila São José e fez uma roça, na qual, como sempre fazia por onde passava, plantou de tudo. E, logo no ano seguinte, levou para lá alguns parentes da minha mãe, que ele considerava tais quais parentes consanguíneos. Não demorou muito, porém, eles começaram a brigar entre si. Eram dados às brigas inimagináveis entre os da própria família. Bingo! Meu pai, por não gostar disso, embora não fosse com ele, largou tudo para trás e voltou para o povoado.
Passado algum tempo, situou do mesmo jeito, o Canadá. Fez a roça e, abrindo os quatro piques na terra devoluta, tirou uma boa área para si. No ano seguinte, levou meu avô materno e dois irmãos da minha mãe. Dividiu a terra dele em quatro partes iguais e deu uma a cada um deles. Ele não tinha parentes consanguíneos aqui e considerava seus os parentes da minha mãe. Como sempre, muita fartura. Plantava arroz, feijão, macaxeira, mandioca de farinha, mamão, banana, cana-de-açúçar e fruteiras diversas, bem como criava porcos, galinhas e patos, além de plantar capim, pensando sempre em criar bovinos.
Malgrado tudo isso, acabou deixando também o Canadá. Um dos cunhados a quem ele levara e dera terra começou a criar encrencas e, por fim, cortou relações: intrigou-se com meu pai e com minha mãe. Passava cabisbaixo pela nossa casa, como se ali não houvesse ninguém. E meu pai, aborrecido ao extremo, sentia vontade de brigar com ele toda vez em que isso acontecia. Jamais o fez, todavia, por ser um homem de bem. Vendeu posse e benfeitorias de seu terreno, por Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros), para a irmã da minha mãe e, em julho de 1971, mudou-se com a família em lombo de burros, para São Geraldo do Araguaia, aonde já chegou sem dinheiro.
“O nordestino é, antes de tudo, um forte”, parafraseando Euclides da Cunha. Na zona rural de São Geraldo do Araguaia, foi vaqueiro, lavrador e castanheiro. Morou com a família (a mulher e os sete filhos) no Castanhal Cajueiro, de José Noleto, em plena Guerrilha do Araguaia, e, semelhantemente a outros homens da região, foi forçado a caçar guerrilheiros, à frente de patrulhas de militares do Exército. Cada patrulha, chamada de equipe, era composta de cinco a sete militares e um civil, chamado de mateiro, o qual ia na frente, por conhecer melhor a mata e saber rastrear. Felizmente, nunca encontraram guerrilheiro nas tais caçadas de que ele participou, com exceção de um, o Fogoió, encontrado morto. Fora envenenado com o inseticida Aldrin por um casal de camponeses.
Voltou para São Domingos do Araguaia, em janeiro de 1976. Depois disso, ainda morou em Xinguara e, novamente, em São Geraldo do Araguaia. O homem era inquieto. Além dos dois já citados, teve a posse de três outros pequenos terrenos rurais: um em Xinguara e dois em São Geraldo do Araguaia, nos quais plantava de tudo e tinha muita fartura. Mas, como sempre, à revelia de sua vontade, acabava se desfazendo da posse desses imóveis e, por fim, já muito doente e separado de fato da minha mãe, faleceu paupérrimo, em janeiro de 2007, em Marabá. Pobre do meu pai, de nada lhe adiantou materialmente ser tão honesto e tão trabalhador!
Posso dizer que meu pai era o cara, mas é impossível não concluir citando Rui Barbosa. Rui começa enumerando: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,” – e, solene e contundentemente, conclui – “o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Não tenho dúvida alguma de que meu pai assim se sentiu muitas vezes na vida.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 21/05/2026
Alterado em 23/05/2026