As terras que foram do meu pai
Visitei, faz alguns anos, terras que foram do meu pai. Diz a Bíblia que Deus, após criar os céus, a terra e tudo que neles há, plantou um belo e frutífero jardim – o jardim do Éden –, e pôs nele o homem, para o cultivar e o guardar. Para “zelar por ele e nele fazer suas plantações” (Gn 2.15), como está escrito na tradução da Bíblia King James Atualizada. Poderia comer de todos os frutos, exceto do fruto da árvore que se lhe determinara não comer.
O homem era apenas o cultivador e guardador, não era dono. Mas, a despeito disso, não estava sujeito à morte e, portanto, se cumprisse a determinação de não tocar na árvore do centro do jardim, dita árvore do conhecimento do bem e do mal, viveria feliz para sempre. Só que ele tocou, descumprindo, como eu diria juridicamente, a obrigação de não fazer. Comeu o fruto da árvore proibida. Transgrediu a ordem de Deus, pecou e morreu. A história é conhecida, creia você ou não creia na Bíblia.
Pois bem. Penso que vem daí o gosto pela terra. E também as brigas. Ocorre que “a terra nunca pertence a determinada pessoa, continua sendo sólida e placidamente de si mesma”, como poeticamente escreveu Nancy Thayer, em A madrasta, publicado no Brasil pelo Círculo do Livro. É verdade. A terra não é de ninguém, é de si mesma: o homem é que pertence a ela. Se muitos soubessem disso, não haveria tanta ganância, tantas desigualdades e tanta miséria. “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo”, adverte a Bíblia, em Isaías, capítulo 5, versículo 8.
“Pulvis es”, “tu és pó” (Gn 3.19). Sim, pó da terra. É o que diz a sentença bíblica de Gênesis. Não adianta querer ignorar. Lembro-me disso sempre que vejo ou ouço falar de tantas brigas e tantas mortes na disputa pela terra. Morei dezesseis anos em Xinguara, na época em que essa disputa foi muito mais acirrada do que é hoje, e por causa dela morreram muitos seres humanos. Sempre os pobres, salvo raríssimas exceções de contar nos dedos de uma só mão. Quantas viúvas e órfãos em nome da ganância!
No Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Jean-Jacques Rousseau, não sem justa razão, diz que tudo começou quando alguém cercou o primeiro pedaço de terra e disse que era seu. Não vou discutir isso aqui, só lembrar. O espaço é exíguo. Diz Rosseau: “O primeiro que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastantes simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil.” Estava lançada a batalha. Pense nisso.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 20/05/2026