Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

Meu pai e o seu matulão

 

 

Meu pai, o piauiense João Belizário de Souza, era uma dessas pessoas que não gostam de lorota nem aguentam desaforo. E, exatamente por isso, saiu de Canto do Buriti, a pé e com o matulão nas costas, em 1952, aos 17 anos de idade, e nunca mais voltou. A pé, com o saco nas costas, ou, muito raramente, de pau de arara, passou por muitas cidades e povoados do Maranhão e de Goiás e, por fim, veio bater no Pará, em São Geraldo do Araguaia, aonde chegou em 1955, após trabalhar por algum tempo no Garimpo do Chiqueirão, hoje Xambioá.

 

Inquieto e aventureiro, não parou por lá. Pôs o matulão nas costas, andou um pouco mais e chegou a São Domingos do Araguaia, no fim de 1956, casando-se com minha mãe, em março de 1957. Nascido em 1935, era, a bem dizer, um menino ainda, tanto ao sair de casa, no Piauí, quanto ao se casar, no Pará, mas encarou a vida, sem fraquejar, com esperança e muito destemor. Por aqui viveu, sofreu a vida inteira e faleceu, em 20 de janeiro de 2007, aos 72 anos de idade. Foi, não resta dúvida, um dos muitos rostos e braços anônimos, sem terra, sem vez e sem voz que desbravaram os rincões brasileiros.

 

Sabedor e admirador da sua história, eu, embora nunca lhe tenha dito isto, acalentei durante muitos anos o sonho de o levar ao Canto do Buriti, mas, como visto, esse prazer não me foi permitido, porque ele faleceu antes. Um sonho malogrado que ficou apenas comigo e agora revelo. Às vezes, isso me dói muito, pois ele merecia esse presente, mas a vida, penso, quis que fosse de outra forma. Não deu. Tenho, contudo, a convicção de que ele, a despeito de ser um homem duro e muito introspectivo, ansiava por um dia ainda voltar lá.

 

Exemplo de caráter, retidão e coragem, meu pai foi um trabalhador incansável a vida inteira, enquanto teve saúde. Trabalhava mesmo, às vezes, até doente. Viveu para trabalhar, mas morreu pobre. Não há como negar: trabalhar muito e com seriedade nunca foi necessariamente a garantia de alcançar o sucesso material. Meu pai, tal quais tantos outros trabalhadores explorados que conheço, é a prova incontestável disso. Neste mundo de exploração do homem pelo homem e as consequentes desigualdades, quem leva a vantagem é sempre o explorador. Eis a triste verdade.

 

Não sabia ler nem escrever, porque a vida lhe negou a oportunidade de aprender, mas era muito inteligente. Para mim, meu pai era sábio. Tinha a mente privilegiada e sabia fazer de um tudo. Foi lavrador, castanheiro, tropeiro e vaqueiro, sem prejuízo de saber fazer funcionar, por exemplo, se fosse necessário, uma oficina de ferreiro. Atirava bem e foi um exímio caçador. Onde houvesse caça, ele garantiria, rápida e facilmente, a carne para o almoço ou o jantar. Demais disso, não era de aguentar pau no ouvido nem de levar desaforo para casa. Com ele, era sim ou não.    

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 19/05/2026
Alterado em 20/05/2026


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