Matulão
O que é matulão? Bom, vamos com calma. A maioria dos leitores já sabe que eu sou, com muita honra, filho de nordestinos. Meu pai, João Belizário de Souza, era piauiense do Canto do Buriti, e minha mãe, Antônia Monteiro de Souza, maranhense do interior de Pedreiras. Lavradores e nordestinos sofridos, eles não tiveram a oportunidade de estudar, como, embora a duras penas, eu tive. Não sabiam ler nem escrever o próprio nome e por isso falavam de forma simples, com muitas corruptelas de palavras do vocabulário comum do Nordeste. Eu, aliás, eu tenho dito isso em algumas das minhas crônicas (“O poeta e as fanfarronices do labrocheiro fanfarrão” e “Com bicho no fouveiro”, por exemplo).
Nasci em um vilarejo, e vilarejo muito pequeno entre os vilarejos do Pará ou de qualquer estado do Brasil. Criei-me na roça, onde vivi até os 20 anos de idade, junto a meus pais, parentes maternos e amigos. A maioria era de homens e mulheres de origem nordestina, de poucos estudos ou, quando não, analfabetos, os quais falavam de forma bem peculiar, o que me despertava a atenção. Gostava, por exemplo, de ver meu tio Américo, um cearense, a falar e dizer suas brincadeiras. Vem de criança o meu interesse pela palavra e, às vezes (aliás, até com muita frequência), ficava intrigado com esta ou aquela palavra, esta ou aquela construção.
Depois dos 20 anos, virei pardal: passei a morar na cidade. Ingressei no serviço público, e, embora morando em cidades pequenas, veio o convívio com pessoas de outras regiões do país, de linguajares diferentes. Além disso, o apego diário a muitas leituras e, em especial, à linguagem jurídica. Assim, como não poderia deixar de ser, fui esquecendo involuntariamente o linguajar do meio da minha parentela, o linguajar dos tempos da infância e da adolescência. Ele, contudo, não morreu: ficou apenas latente. Fico muito feliz quando alguém, de alguma forma, me faz resgatar esta ou aquela palavra do meu passado, desnecessário dizer, a cada a dia mais distante. Muito de mim ainda mora lá.
Hoje, ao ler a crônica “Populismo barato”, do meu amigo e irmão de ideal maçônico Ademar Rafael Ferreira, no Blog do Finfa, resgatei a palavra matulão, uma das bem nossas, ou seja, com o sentido em que a empregávamos no meu tempo de criança e adolescente, num ambiente bem nordestino em plena selva amazônica: alforje, trouxa ou saco de provisões de viagem, carregado às costas. Matulão é o aumentativo de matula, com esse aí e com outros significados. Sim, a palavra tem outros significados dicionarizados, mas era com esse aí que nós a usávamos e Ademar hoje a usou. Foi, como sempre, muito bom voltar ao passado com o resgate de uma palavra da qual há muito não me lembrava.
Encerrando, rendo aqui as minhas homenagens a Sebastião de Jesus Souza Castro, o Degas, já falecido, de quem guardo boas lembranças. Advogado como eu e meu colega de trabalho na Câmara Municipal de Marabá, sempre que algum tempinho de folga nos permitia, ficávamos a conversar sobre assuntos amenos e diversos, ocasiões em que ele propositadamente buscava palavras e expressões bem nossas que o tempo, neste ambiente urbano de pessoas com novos costumes e, por isso mesmo, a cada dia bem mais diverso, vai se encarregando de relegar ao esquecimento. São as coisas da vida. Ficaram as lembranças e a saudade.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 18/05/2026
Alterado em 19/05/2026