O meu livro da quarta série
Sempre gostei de comprar livros diretamente da editora e receber pelos Correios. Antes, era por reembolso postal. Fazia o pedido, a livraria ou editora enviava, eu fazia o pagamento à agência dos Correios e recebia o livro. A primeira aquisição que fiz dessa forma foi em setembro de 1977, quando comprei o livro Tudo sobre análise sintática, de autoria dos Professores Antonio Cruz Neto e Wilson D’Angelo Braz. Com o tempo, às vezes, enviava o pagamento antecipadamente, por vale postal ou por cheque visado, e, quando os bancos deixaram de trabalhar com cheque visado, por cheque administrativo. A forma de pagamento antecipado foi evoluindo com a tecnologia: transferência eletrônica na boca do caixa, depósito instantâneo na boca do caixa e, por fim, pix ou cartão de crédito, como faço hoje em dia.
Isso explica de certa forma a minha persistência em procurar pelo meu livro de Português da quarta série durante mais de 40 anos. Primeiro, a procura nos catálogos de livrarias e editoras das quais eu comprava livros. Com o passar do tempo e evolver da tecnologia, pela internet. Guardara na memória, desde 1976, o título da obra e o nome do autor: Comunicação e expressão em português, de Jairo F. Martins. Parecia procurar em vão, pois não o encontrava. Nem uma referência sequer, mas eu persistia. Um dia, em 2021, para minha alegria, enfim o encontrei no Mercado Livre. E comprei logo. Não podia deixar para depois e correr risco de alguém o comprar antes de mim.
Comunicação e expressão em português foi publicado em 1975, há 51 anos, pela Editora do Brasil, e foi o meu livro de Português da quarta série do então Ensino de Primeiro Grau, em 1976, livro que devolvi à escola no fim do ano com muita tristeza. Queria muito ficar com ele, principalmente por causa de “Mãe”, um poema de Sady Machado, que eu jamais esqueceria. Mas o livro pertencia ao Programa do Livro Didático para o Ensino Fundamental, do Instituto Nacional do Livro (Plidef), e, por isso, tinha de ser devolvido pelo aluno. O pior de tudo era que, ainda que ele estivesse disponível para a venda, meu pai, um pobre lavrador sem propriedade própria e pai de sete filhos, não teria condições financeiras para comprar. Por mais barato que fosse, pesaria no parco orçamento da família.
Terminado o ano, entreguei o livro à minha mãe, para que ela o devolvesse à escola. Decidi, porém, embora calado, que, tão logo tivesse o meu próprio dinheiro, compraria um exemplar dele para mim. E, para isso, guardei na memória, como já disse, o título da obra e o nome do autor. E a procura, como já sabe o leitor, se estenderia até 2021. Sabia de cor, como ainda sei, a história do beduíno e de seu hospedeiro, outro beduíno, o marido de Zara, pai de Omar e dono do cachorro Rex e do camelo Zura. Gostava de brincar, recitando trechos do texto e sempre arrematar com as palavras finais: “O hospedeiro sacou de um bordão para bater nele; mas o beduíno fugiu.”
Feita a compra, esperei ansiosamente a chegada do carteiro. Até que, enfim, chegou. Marquei até o dia e a hora em que o recebi. Foi no dia 28 de abril de 2021, às 15h10. Abri logo o pacote e chamei a Câmelha e nossos dois filhos, Daniel e Samuel, para lhes mostrar o livro e falar da minha procura por ele, havia mais de 40 anos. Emotivo, não consegui conter as lágrimas e chorei em voz audível. Depois, mostrei a eles os quatro textos dos quais nunca me esquecera: “O Hóspede”, “Mãe”, “Adelaide”, “Adelaide e o Velho Sábio”. Ah, sim, um pormenor interessante! O livro envelhecera na prateleira e nunca fora usado. Fora feito para mim, claro!
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 17/05/2026
Alterado em 20/05/2026