Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos


 

De silabadas e outras coisitas do dia a dia

 

 

Coçava-me os ouvidos aquela história de “mercância”. Era uma silabada. Mercancia é o exercício do comércio, na condição de comerciante. É o ato de mercanciar ou mercadejar. Definição simples do Direito Comercial. É mercancia, que rima com melancia. Não é “mercância”, que rima com importância. Tive, contudo, uma professora de Direito que pronunciava “mercância”, rimando com importância, como se aí tivesse o acento circunflexo na sílaba “cân”, que não tem. Falei disso na crônica “O mister e o diuturnamente”. Bons tempos, que se distanciam a cada dia no passar dos anos!

 

Sim, dava coceira nos meus ouvidos a tal da “mercância” da professora (morro, mas não digo aqui o nome dela, claro). E por isso, depois da aula, não sem uma boa pitada de ironia, eu comentava com os colegas mais chegados da turma de Direito de 1996 (poder-se-ia dizer que eram os da minha gangue), na Universidade Federal do Pará (o Euvecio, o Juliano e o Luciano): “Vocês sabem o que é ‘mercância’? Eu não sei. Sei o que é mercancia. Mas, ‘mercância’ deve ser vender na feira uma coisa chamada ‘melância’. Só pode ser.” Que maldade, não é? Mas também, quem manda a professora ficar cometendo tamanha silabada?

 

O tempo passou e nós todos mudamos muito. Essas coisas, porém, pelo menos na minha memória, continuam bem vívidas. Sempre fui muito dedicado à gramática normativa, embora também ame a linguística, pois uma coisa não exclui a outra. Escrevia zelosamente, atento à ortografia, à sintaxe, e assim por diante. E, evidentemente, não descuidava da ortoepia. Deixaria, entretanto, com o passar do tempo, de ser tão intolerante com os chamados desvios da norma-padrão. Já não levo tudo a ferro e fogo, como fazia à época de universitário e mesmo durante muito tempo depois de graduado. Mas, convenhamos, não dá para aceitar essa tal de “mercância”, não é verdade? Pois é.

 

Por falar nisso, lembrei-me agora de que, certa vez, na porta da agência do Banco do Brasil, na Marabá Pioneira, o Professor Júlio César Souza Costa, excelente professor de Direito e meu amigo, referindo-se a duas ou três crônicas seguidas que eu publicara no jornal Correio do Tocantins, me interpelou: “E aí, gramático? Quando é que você vai sair da gramática?” Em seguida, antes que eu lhe dissesse qualquer coisa em resposta, avisou logo: “Olhe, estou brincando. Não vá pôr meu nome lá, não!” Sabia ele que, sendo eu bem radical nessas coisas, dar-lhe-ia resposta na crônica seguinte.

 

Saberia, o leitor, por que a rápida explicação de que se tratava de uma brincadeira? Não só porque ele, de fato, estava brincando, mas também porque sabia que, se não explicasse, minha reação na próxima crônica seria à altura. Não fazia muito tempo que ele, como professor de Introdução ao Estudo do Direito, havia me criticado e diminuído a nota de uma atividade avaliativa. Não gostara de eu ter feito considerações gramaticais ao responder, já que se tratava de um trabalho acadêmico de Direito, não de Letras. Não me deu, por isso, a nota máxima esperada e, com efeito, me prejudicou onde e quando eu julgava que deveria ser elogiado. Não era, porém, da minha índole ficar calado diante de uma situação injusta. E não fiquei mesmo.

 

O aluno de Direito que, combativamente, sempre gostou de escrever e assinar embaixo jamais deixaria as coisas como estavam. Recorri, pedindo a revisão da nota. Aleguei que o advogado, mais do que outros profissionais, tem como instrumento de trabalho a palavra, a qual deve ser sempre escorreita. Lembrei-lhe, ainda, a solene lição de Edmundo Dantès Nascimento: “O escrever corretamente assume no campo do direito valor maior do que em qualquer outro setor.” E, assim, como não poderia ser diferente, ele conheceu do recurso e deu-lhe provimento, para corrigir minha nota e me atribuir o conceito máximo, Excelente. Bons tempos aqueles!

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 17/04/2026
Alterado em 17/04/2026


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