De banal e efêmero a significativo e permanente
Fazer do banal e efêmero algo significativo e permanente, eis a arte de escrever crônicas. Crônica é um texto literário curto, em prosa, sobre acontecimentos reais do cotidiano, com a visão particular do cronista, escrito muitas vezes, subjetiva e reflexivamente, na primeira pessoa, com leveza e espontaneidade, o qual, não raramente, mistura narração e reflexão, e termina de forma inesperada para o leitor. Não é ficção, é uma narração de fatos reais. Crônica vem do grego χρόνος, que se translitera chrónos, e significa tempo. É por isso que, antigamente, crônica era o registro cronológico de fatos diários. Era também o registro dos grandes feitos dos reis. É com esse sentido, por exemplo, que a palavra é usada na Bíblia.
Existem vários tipos de crônicas: esportiva, humorística, lírica, metafísica ou reflexiva, e assim por diante. Sempre em prosa; se o texto for em versos, não é crônica, é poema. A forma, porém, é bem livre, podendo, inclusivamente, ser em forma de carta ou, ainda, um poema em prosa. E pode, evidentemente, ter ou não ter personagens. Deve ela, além disso, ter a aparência de simplicidade, mas, ao mesmo tempo, a profundidade que transforme o banal em significativo e dê ao efêmero o caráter de permanente. Com efeito, escreveu Affonso Romano de Sant’Anna: “O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se. Seu ‘eu’, como o do poeta, é um eu de utilidade pública.”
No que diz respeito à publicação, a crônica é um texto que pode ser publicado em jornal, revista, blogue ou, ainda, no rádio e na televisão, e se caracteriza, em síntese, por ser a observação da realidade pelo cronista, o qual escreve em tom pessoal, subjetivo, leve e espontâneo, em linguagem simples, sutil e elegantemente crítica, não raramente com humor, ironia ou sarcasmo que enlevam em vez de agredir. Eis a razão por que José Marques de Melo, bela e poeticamente, diz que a crônica é o “artifício noticioso carregado de subjetividade, no qual os leitores mais sensíveis se refugiam para neutralizar as agruras do cotidiano”.
E o tamanho da crônica? Deve ser um texto curto e leve, como já diz a definição. Isso, todavia, é subjetivo e varia um pouco, conforme o estilo do cronista. Não obstante essa variação de estilo, modernamente, por questão de espaço, jornais e blogues costumam exigir que o texto tenha de trezentas a quinhentas palavras, as quais o cronista distribui em parágrafos, também conforme seu gosto e estilo, observadas, obviamente, as regras gramaticais. Não existe, portanto, um número fixo de palavras e de parágrafos. Eu, por exemplo, já faz algum tempo, gosto de escrever crônicas de cinco parágrafos, com mais ou menos o mesmo número de palavras em todos eles. Minhas crônicas atuais nunca têm menos e raramente têm mais do que cinco parágrafos. Era o estilo adotado por Otto Lara Resende, no jornal Folha de S. Paulo.
Essa crônica no estilo Otto Lara Resende – também praticada, com ligeira diferença de paragrafação, por Ruy Castro, Carlos Heitor Cony e outros –, é o que chamamos de canto de página ou rodapé do jornal, espaço que, não há como negar, enriquece a literatura brasileira, queiram ou não queiram os críticos de plantão. Existem crônicas que são páginas extraordinárias da nossa literatura. Aliás, foi mais ou menos isso que, certa vez, disse solenemente o imortal da Academia Brasileira de Letras Abgar Renault, referindo-se à crônica “Os salteadores à solta na floresta urbana”, de Rachel de Queiroz. Evoco, pois, como fecho, Joaquim Ferreira dos Santos: “A crônica não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz literatura também. Textos feitos para o momento e que, pela qualidade, vão ficar para sempre.”
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 01/04/2026
Alterado em 01/04/2026