Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos


 

Um pé de quiabo

 

Rubem Braga tinha um pé de milho, que pendoou na mesma semana em que os norte-americanos entraram em contato com a Lua, e serviu a ele de inspiração para uma bela crônica, depois publicada em livro com o mesmo nome, até hoje famoso na literatura brasileira, com muitas edições. A primeira edição do livro Um pé de milho é de 1948 e a mais recente é de 2019. Antes dele, do pé de milho de Rubem Braga, Humberto de Campos teve um pé de caju, também imortalizado na literatura brasileira, e até hoje vivo e viçoso, apesar dos seus mais de 140 anos. E eu? Bom, eu tenho um pé de quiabo, que também foi transplantado. Não de um monte de terra no quintal para o canteiro da frente da casa, mas da roça, na chácara da minha irmã Ednalva, para a porta da cozinha da minha casa, na Rua Maranhão.

 

É um belo exemplar de abelmosco. É abelmosco? É, sim. Aliás, sei lá! Só sei (ou, melhor dizendo, penso) que não é poácea nem anacárdio. Não é. Passo, contudo, a palavra aos especialistas. Bom mesmo seria se fossem um exemplar de faséolo e outro de abelmosco, se é que estou certo na minha ligeira aventura taxinômica ou, se alguém assim preferir, taxonômica. Só aventura mesmo e de brincadeira. Minha formação jurídica me ensinou a, quando tiver dúvida sobre assunto alheio ao Direito, chamar sempre o perito. Socorra-me, meu caro amigo Professor Doutor Gutemberg Armando Diniz Guerra, com sua autoridade de engenheiro-agrônomo!

 

A quem não entendeu bulhufas do parágrafo anterior, explico que estou apenas brincando. É que eu gosto de, às vezes, chamar animais e plantas pelo nome do seu gênero ou, às vezes, da família, quando não pelo próprio nome científico, que é escrito em latim. Faséolo é feijão, cujo nome científico é Phaseolus vulgaris. Eu disse, brincando, que é um belo pé de quiabo, não é de milho nem de caju, mas bom mesmo seria se fossem um pé de feijão e outro de quiabo. Explico, demais disso, que no processo judicial, quando o assunto versado é de outra área do conhecimento, o magistrado, o membro do Ministério Público ou o advogado, qualquer um deles, chama o perito. No Direito, quando é necessário, nós reconhecemos solenemente nossa ignorância.  

 

E os norte-americanos? Os norte-americanos continuam em cena, de forma cada vez pior, infelizmente. Se em dezembro de 1945, época do pé de milho de Rubem Braga, eles se dedicavam a explorar a Lua e – digamos assim, na visão deles – outras coisitas do espaço sideral, agora, em 2026, eles se dedicam a invadir outros Estados soberanos e sequestrar ou, quando não, assassinar o governante. Ferem de morte princípios tão caros do Direito Internacional, como o da autodeterminação dos povos, o da não intervenção e o da igualdade entre os Estados. Não é lícito, em lugar nenhum do mundo, invadir a casa e sequestrar ou assassinar o dono.

 

Pois bem, meu pé de quiabo também “é um belo gesto da terra”. E eu comemoro. Na geopolítica, porém, a história é outra. E é triste. Não há o que se comemorar, só o que se lamentar, repudiar veementemente e combater, usando todos os meios lícitos ao nosso alcance. O mundo não pode se calar nem, muito menos, se quedar e permanecer inerte diante da maldita escalada norte-americana. Não se trata de perigo isolado para este ou aquele país, mas de perigo para todos no mundo. Os Estados Unidos da América, com suas ações e operações de necropolítica externa, ameaçam e expõem o mundo todo ao perigo. Só não vê isso quem não quer ver. E aí está o maior perigo.

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 25/03/2026
Alterado em 26/05/2026


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