Abandonado por quase todos, não por Deus
O apóstolo Paulo fora abandonado por quase todos. Há nostalgia e abalo emocional no apelo feito, no fim de sua segunda e última carta ao jovem pastor Timóteo: “Procura vir ter comigo depressa”, diz o versículo 9. “Somente Lucas está comigo”, diz a parte “a” do versículo 11, ambos do capítulo 4 da Segunda Epístola de Paulo a Timóteo. Humanamente, era homem, de carne e osso, como nós, sujeito às mesmas fraquezas, medos, paixões e outros sentimentos. Espiritualmente, contudo, era diferente, ninguém tenha dúvida. Tinha a intrepidez e a firmeza inabalável em Cristo, que se tornaram a distinção maior de sua vida ao renunciar plenamente ao seu passado de audaz perseguidor dos cristãos.
O texto, dirigido ao jovem Timóteo, a quem Paulo discipulara, é claro o suficiente quanto à condição humana do apóstolo dos gentios naquele momento: além de preso, ele estava só, pois fora abandonado pelos seus. Era prisioneiro do evangelho em Roma. E os seus, aqueles com quem era de se esperar que pudesse contar naquela situação, estavam longe, por motivos diversos. Esses motivos, como dito acima, são explicados no versículo 10, em especial, o doído abandono de Demas, que o deixara por amar mais o que o apóstolo chama de presente século. Agora, pois, a situação não era como da outra vez, na primeira prisão.
Conforme o capítulo 4 da carta aos fiéis de Colossos, Demas estivera firme com Paulo na primeira prisão deste, como também estavam Tíquico, Onésimo, Aristarco, Marcos, Epafras, Lucas, o médico amado (“Λουκᾶς ὁ ἰατρὸς ὁ ἀγαπητὸς”), e Jesus, chamado Justo (“Ἰησοῦς ὁ λεγόμενος Ἰοῦστος”), que era um judeu convertido e, não, Jesus Cristo, como alguém pode pensar. Poucos anos depois, porém, a quando da segunda prisão do apóstolo, Demas apostatou da fé e abandonou o irmão de fé e amigo, na hora em que este mais necessitava de sua companhia e assistência. Tais são os seres humanos, tais são as coisas deste mundo!
O interessante, porém, é que Paulo estava prisioneiro e praticamente só, mas, além se preocupar em alentar o coração dos irmãos que estavam soltos, não se sentia derrotado nem desistia da pregação do evangelho. Não! Ele, ao contrário disso, alheio à vontade do Estado, anseia por continuar firme e cumprir a missão de anunciar o evangelho pelo qual estava em algemas. Não se deixava intimidar pelas prisões. O seu desejo está expresso nos versos 3 e 4 do capítulo 4 da carta enviada aos irmãos de Colossos: “Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual também estou algemado; para que eu o manifeste, como devo fazer.”
Paulo, de fato, renunciara inteiramente à sua vida pregressa e tinha, por isso, a intrepidez de dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). Também podia dizer, como diante do sofrimento e das provações, disse: “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (2Co 4.8-9). Como todo líder, tinha amigos e colaboradores, mas a sua força e a sua intrepidez para pregar o evangelho nunca estiveram condicionadas à ausência de confrontos, ameaças e toda a sorte de provações nem à presença e companhia de homens e mulheres do seu tempo.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 24/03/2026