Recanto Literário

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Textos

Bons dias para nascer e para escrever

 

Diz José Marques de Melo que a crônica no jornal é um “artifício noticioso carregado de subjetividade, no qual os leitores mais sensíveis se refugiam para neutralizar as agruras do cotidiano”. Otto Lara Resende, mestre na arte de cronicar, estreou como colunista do jornal Folha de S. Paulo, no dia 1.º de maio de 1991, com a crônica “Bom dia para nascer”, a qual faria parte do livro Bom dia para nascer, publicado em 1993 pela Companhia das Letras, edição organizada por Marinas Suzuki. Anos depois – em 2011, para ser exato –, sairia uma edição revista e ampliada, organizada por Humberto Werneck, da qual tenho um exemplar.

 

Bom dia para nascer é uma obra de leitura muito agradável. Meus leitores, dada a quantidade de vezes em que o tenho citado, sabem o quanto gosto desse livro.  Otto era um cronista genial, daí as tantas citações. E foi ótima a escolha do título da crônica inicial. Penso que não poderia melhor. Confesso que não me preocupo com o título das minhas crônicas e menos ainda com o título deste ou daquele livro em que depois as publico. Geralmente, escolho o título de qualquer uma delas e com ele dou nome ao livro. Não me preocupo, mas, pensando bem, concluo que deveria me preocupar.

 

O título, seja de uma crônica, de um conto ou de um livro, é sempre muito importante, pois é a partir dele que o leitor se interessa ou não pela obra. Não sem razão o grande romancista Antônio Torres, imortal da Academia Brasileira de Letras, autor de Um cão uivando para a Lua e tantos outros romances que são verdadeiros long-sellers, se diz fascinado por títulos. Parodiando Shakespeare, ele até brinca, dizendo: “Um título! Meu reino por um título!” Interessante, o sucesso ou o insucesso já começa pelo título da obra.

 

Hoje, lendo on-line as crônicas de Ruy Castro, na Folha de S. Paulo, deparei-me com uma cujo título é “Outro bom dia para escrever”, o que logo me despertou a atenção. Fui ler a crônica e vi que foi publicada no dia 25 de fevereiro de 2023. Ruy, com isso, faz alusão ao dia 26 de fevereiro de 2007, quando começou a escrever crônicas no rodapé ou, como se queira, no canto de página da Folha. O título é, pois, uma homenagem a Otto Lara Resende, parodiando-lhe o título da crônica de estreia na coluna, em 1.º de maio de 1991, “Bom dia para nascer”.

 

Bela e significativa homenagem a Otto Lara Resende, posto que talvez singela demais para os desavisados. Ruy, que também é da Academia Brasileira de Letras, é um grande cronista e eu leio suas crônicas, faz anos. Antes, eu acessava a Folha só para ler a crônica de Carlos Heitor Cony (que, antes ainda, lia na revista Manchete), e a coluna jurídica de Walter Ceneviva, assim como lia no jornal O Globo a crônica de Affonso Romano de Sant’Anna e a de João Ubaldo Ribeiro. Também gosto muito da Tati Bernardi e da Martha Medeiros, que escrevem, respectivamente, na Folha e em O Globo. 

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 23/03/2026
Alterado em 24/03/2026


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