Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

As pontes do rio Itacaiunas, o dique e a regata

 

Boi voa. Sim, em Marabá, boi voa. Aliás, em outros lugares, também. E todos veem, mas – ingênua, quando não propositada e maldosamente – dizem que é pombo. Eu sempre disse isso, desde o início do meu tempo de Câmara Municipal. Eu dizia, como ainda digo, e, é claro, os donos de Marabá que frequentavam o Palacete Augusto Dias, na Marabá Pioneira, e, anos depois, a nova sede da Câmara, na Agrópolis Amapá, não gostavam nem um pouquinho. Penso que continuam não gostando, mas eu continuo dizendo. Minha mãe teve o cuidado de não me queimar a língua com papa. Boi voa, sim. E – mais do isso – só gosta de sobrevoar as sedes de poder (câmaras, prefeituras e outros palácios). É o habitat natural do bicho.

 

Não gosto de cronicar sobre política e outras coisas das quais os outros gostam de falar e escrever, mas vou abrir uma exceção. Boquiaberto, vejo na mídia que as duas pontes sobre o rio Itacaiunas devem ser implodidas, porque já não podem ser recuperadas. Belisco-me, para ver se não é um pesadelo. E, para desventura do contribuinte, vejo que não é. Não é pesadelo nem desvario: estou lúcido e acordado. E não é só isso. Como vivemos na era da pós-verdade, já começou a guerra de desinformação. Há quem diga que se tem de implodir as pontes, e, de outro lado (sem trocadilho), quem diga que não é necessário implodir. No meio disso, ficamos nós, os pobres mortais contribuintes e usuários.

 

Puxa vida, não é de hoje! Sabe aquela obra pública que começou há anos, mas parece que nunca vai ser concluída? Sabe aquela obra pública que, mal foi inaugurada, já apresenta defeitos? Pois é, muitos pensam que isso é coisa só do nosso tempo, fenômenos só dos nossos dias, prática perniciosa só dos maus políticos de hoje, mas não é. As compras e obras superfaturadas, as obras que iniciam e parecem nunca mais terminar, enfim, essa coisa de malversação do dinheiro público e outras falcatruas do gênero vêm de longe, muito longe. São maus costumes antigos, não apenas do nosso tempo. Já existiam, posso lhe garantir, no tempo em que Machado de Assis começou a escrever crônicas.

 

Pense em uma obra feita com dinheiro público cuja construção durou 37 anos, mas, nove dias depois de ser inaugurada, apresentou defeito gravíssimo e teve que ser interditada. Pense em um espetáculo pago – uma regata – que não aconteceu e por isso o público pagante ficou a ver navios ou, melhor dizendo, foi lesado. Pois bem, isso já acontecia no tempo em que Machado de Assis cronicava no jornal Semana Ilustrada. Dique da Ilha das Cobras e Regata de Botafogo são episódios aos quais Machado alude na sua crônica de 12 de outubro de 1861. “Não falo aos leitores, da regata e do mero achado no dique, por serem cousas velhas”, assim ele começa um dos vários parágrafos da crônica. Veja-se que ele, ironicamente, diz que não fala, mas já está falando. É a figura marota do “cala-te, boca!”. Machadinho era o cara.

 

Duas charges de edições diferentes da Semana Ilustrada – a do dia 6 de outubro e a do dia 13 – ironizam, respectivamente, o episódio da regata frustrada e o do mero morto a pauladas por marinheiros insubmissos. Mantida aqui, por gosto histórico, a grafia da época, a do dia 6 dizia: “Cahio muita chuva em cima de muita gente que fingia ver muitos botes, que andavam muito longe.” E a do dia 13 alfinetava: “Viva o dique, porque se não servir para remendar navios, por estar-se descosendo, serve ao menos para pesqueiro.” É que o dique não funcionou e teve que ser esgotado, ocasião em que os marinheiros encontraram o peixe e, desobedecendo aos superiores, o mataram a pauladas. E a regata, porque ocorreu muito longe da praia, não pôde ser apreciada. Quem ficou no prejuízo? Não precisa me responder.

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 22/03/2026
Alterado em 22/03/2026


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