Escobar era mesmo o comborço de Bentinho?
“E, para finalizar, que dizer, por exemplo, do enigma sobre o adultério ou não de Capitu em Dom Casmurro? Houve ou não houve adultério?”, assim terminei a crônica “Adultério e ciúme na obra de Machado de Assis”, publicada em Variações: revista de literatura contemporânea, agora, no dia 9 de março. A indagação é literária. Muito já se disse e, penso eu, se haverá de continuar dizendo sobre o enigma criado tão sábia, engenhosa e belamente por Machado de Assis em Dom Casmurro. São crônicas, resenhas, artigos acadêmicos e monografias, dissertações e teses (da graduação à pós-graduação stricto sensu). Não só do curso de Letras, mas também de outros cursos, como, por exemplo, de Filosofia e de História. Inesgotável e agradabilíssima é a discussão do enredo machadiano.
Pois bem, volto ao assunto. Por duas razões. A primeira é que já firmara o propósito, fazia algum tempo, de escrever duas ou três crônicas sobre o suposto rolo ou furdunço de Escobar e Capitu, tal qual fez Otto Lara Resende, em 1992, na Folha de S. Paulo, com as belas crônicas “Não traiam o Machado”, “Inocente ou culpada” e “Capitu e o meu ônfalo”, as quais já li e reli no livro Bom dia para nascer, das crônicas que Otto publicou na Folha. Aliás, Walter Ceneviva, advogado e jornalista, também publicou na Folha a crônica “Capitu pegaria até seis meses de cadeia”, que já li e reli no livro Curso de português jurídico. Tenho gosto, bem sabe o meu leitor, pela abordagem de assuntos como este com a superficialidade e leveza da crônica e sem a sisudez de, por exemplo, um artigo acadêmico. A segunda razão, bem nobre, é para acudir ao comentário de um amigo muito especial e irmão de ideal literário, o Professor Doutor Abilio Pacheco, professor de Literatura na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.
Abilio Pacheco, comentando-me a crônica de Variações, escreveu pelo WhatsApp: “Boa tarde. Gostei do texto. Mas esperava que você comentasse algo sobre ‘meu comborço’.” Não sei quais as razões por que ele esperava isso e tampouco o algo esperado. Talvez seja pela minha formação jurídica, por exemplo, já que, na época de Capitu e Escobar, adultério era crime, e, além disso, Bento Santiago, o Bentinho, era advogado, formado em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, após abandonar o seminário de Teologia. Talvez, ainda, por saber ele do meu gosto por comentar, aqui e acolá, nas minhas crônicas, esta ou aquela nuança desta ou daquela palavra. Realmente, aprecio muito fazer isso.
Muito bem. Conheço a palavra “comborço” desde que a li, em 1979 (julho de 1979), ao ler pela primeira vez Dom Casmurro, numa bela edição da Editora Ática, livro que me fora emprestado pelo amigo Antônio Ferreira Filho. Aliás, na época, também me foram emprestados pelo mesmo amigo, que hoje mora em São Paulo, os romances O sertanejo, A viuvinha, Cinco minutos e Lucíola, de José de Alencar, que li. Muitos anos depois, comprei aquela edição da Ática e outras diferentes edições de Dom Casmurro, inclusivamente uma de luxo, as quais guardo com carinho. A propósito, vou reler pela segunda vez Dom Casmurro. A edição da Ática traz a seguinte nota de rodapé no capítulo 132: “Comborço: Relação de ‘parentesco’ que se estabelece entre o marido e o amante da mulher. (N.E.).” Foi aí que, em 1979, aprendi o que significa comborço.
Depois, com o tempo, como gosto de ler dicionários, já li sobre comborço em outras fontes. Comborço é, para o marido ou o amante, o amante da mulher casada ou amasiada. Não mais existe em nossos dias o crime de adultério, mas existe o ilícito civil da infidelidade conjugal, punível, pois, pelo Direito Civil, o que poderá ser assunto de outra crônica. O que, porém, penso ser mais interessante é que o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa diz que o substantivo comborço é deduzido de comborça, palavra esta que (diz a mesma fonte) talvez venha do celta. Assim, comborça – que é “aquela que é amante de um homem, em relação à mulher ou a outra amante desse homem” – teria surgido antes de comborço. Aliás, no conto "Missa do galo", de Machado de Assis, que li faz alguns anos, há também uma personagem que tem uma comborça. E aí, Escobar fora mesmo o comborço de Bentinho?
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 18/03/2026
Alterado em 23/03/2026