Crônica não é ficção
É fato. Chegamos a certa idade e pensamos que já vimos de tudo, só que não. A coisa não é bem assim. É vivendo e sendo surpreendido aqui e acolá, quando não a cada dia. Diz-se até que é vivendo e aprendendo, o que também não é bem assim, pois é preciso ter muito cuidado, velando para não desaprender. Ou, ainda, se alguém assim prefere, para não ser ensinado erradamente por este ou aquele cafuçu. A coisa é séria, leitor e leitora. Tenha cuidado! Por que estou escrevendo isso? Porque isso vale para quase tudo que se possa imaginar. Não se avexe, não!
Preciso falar um pouco da minha relação com a crônica, mas não é narcisismo nem exibicionismo, é pelo objetivo desta crônica em si. Imagine, pois, você. A crônica é o meu gênero literário preferido. Escrevo crônicas e estudo sobre o gênero há mais de duas décadas, além de dar palestras em escolas. Concluirei neste semestre a minha licenciatura em Letras e o meu trabalho de conclusão de curso foi sobre a crônica e sua importância na literatura brasileira. Assim, como não poderia ser diferente, tenho vários livros de teoria literária sobre o gênero crônica, alguns dos quais serviram de referencial teórico para o trabalho de conclusão do curso.
Dentre os vários livros de teoria literária sobre crônica que tenho, posso citar estes: Crônica, arte do útil e do fútil: ensaio sobre a crônica no jornalismo, de Wellington Pereira; Crônica: história, teoria e prática, de Flora Christina Bender e Ilka Brunhilde Laurito; A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil, de Antonio Candido e outros; A crônica, de Jorge de Sá; e Jornalismo e literatura: a sedução da palavra, de Gustavo de Castro e Alex Galeno (organizadores). Posso, pois, dizer que, pelo menos, sei muito bem o que é crônica, se é ou não é ficção. Logo, modéstia à parte, não vou aceitar que alguém de outra área venha me doutrinar sobre o gênero.
Pois bem. Na noite de ontem, dia 9, um leitor afoito e desavisado, após ler a minha crônica “Adultério e ciúme na obra de Machado de Assis”, publicada na Variações: revista de literatura contemporânea, meteu-se a, querendo me corrigir, enfiar-me na cabeça que crônica é ficção e que o que se publica em jornal não é crônica, é coluna, que a verdadeira crônica é ficção. E blá-blá-blá, blá-blá-blá e blá-blá-blá. Que heresia! Quanta tolice! Haja santa paciência! Agradeci, educadamente, pelo comentário e tentei explicar, delicadamente, que é exatamente o contrário do que ele dizia, mas não deu. É inútil, coisa inglória, discutir com quem não sabe do assunto. Resultado: bloqueei o insensato e o excluí da lista de transmissão.
“Crônica é um texto literário curto, em prosa, sobre acontecimentos reais do cotidiano, com a visão particular do cronista, escrito muitas vezes, subjetiva e reflexivamente, na primeira pessoa, com leveza e espontaneidade, o qual, não raramente, mistura narração e reflexão, e termina de forma inesperada para o leitor”, como escrevi no meu trabalho de conclusão de curso já citado. Não é ficção, como é o conto. Esse é o ensinamento da corrente majoritária, à qual me filio. Embora, aqui e acolá, algum teórico descuidado possa dizer que a crônica é sobre fatos reais ou fictícios, crônica não é ficção. Há pessoas (e, infelizmente, talvez sejam muitas) que não são ensináveis, pois, obstinadamente, não se deixam ensinar.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 10/03/2026
Alterado em 11/03/2026