A perspicácia e a simplicidade das crianças
Ontem, 15 de janeiro de 2020, às 11h10, fui ao Mix Mateus, com a Câmelha, fazer as compras do mês, já que estamos legalmente de folga. Eu, como servidor do Poder Legislativo, por causa do recesso parlamentar; ela, como professora, por causa do recesso escolar. Faço, evidentemente, questão de esclarecer, para que ninguém pense ou, ainda, pior do que isso, diga que fomos ao supermercado no horário de nosso expediente.
Fiquei surpreso com a quantidade de pessoas presentes. Sempre fazemos a compra sábado ou domingo, dias nos quais o supermercado está cheio, superlotado de fregueses. Julguei, porém, que ontem, por ser quarta-feira e já quase meio-dia, estaria vago. Enganei-me, não estava. Havia muita gente, pessoas de ambos os sexos, adultos e crianças (estas, evidentemente, acompanhadas dos pais ou responsáveis legais).
Chamou-me a atenção, já quase na hora de irmos embora, uma criança que, altiva e elegantemente, tomou a iniciativa de conversar comigo, no departamento de hortifrutigranjeiros. Era uma menina loira, de olhos azuis, 8 a 9 anos de idade, calçada de sandálias havaianas, cabelos curtos, presos com um prendedor elástico de tecido. O pequeno corpo, as roupas e os calçados estavam mais sujos do que limpos. Ela, contudo, era linda, altiva e muito elegante.
Meu carrinho já estava cheio e eu, já cansado, olhava tudo, apenas por olhar, enquanto a Câmelha, escolhendo as últimas mercadorias da compra, ia apanhando e ensacando cenouras, batatas, melões e outros hortifrútis. De súbito, a menina, sem que os outros vissem, me interpelou: “Tio, o senhor está aqui vendendo, ou comprando?” Eu, sorrindo, respondi: “Estou fazendo compras.” Aí, ela, com elegância e muita naturalidade, explicou: “Ah, pensei que era o gerente, vestido assim, com essa camisa branca e essa calça preta.” Sorri e fiquei calado. Ela, por sua vez, continuou com a maior naturalidade.
Observei e concluí que ela, pelo menos naquele momento, estava sozinha. Com um pacotinho na mão esquerda, como se disfarçasse alguma ação, examinou com a mão direita, durante certo tempo, os caixotes de madeira vazios de que haviam sido retirados os hortifrútis. Depois, tão inopinadamente quanto surgira, desapareceu. Pegou um dos caixotes vazios e saiu, enquanto eu a olhava – cheio de ternura, impotente, quase às lágrimas –, pensando em quem seriam os seus pais, onde ela morava e se eu ainda a veria. Uma criança, como tantas outras, tão doce, tão pura e tão indefesa em meio à própria espécie, que, ao invés de lhe servir de proteção, representa perigo.
A Câmelha terminou de escolher a mercadoria, fomos ao caixa, pagamos e rumamos para casa. Só em casa, bem depois, contei a ela, não por falta de vontade minha, pois ficara deveras impactado, mas porque a Câmelha, mesmo de folga, está sempre às voltas com coisas da escola, notadamente da Escola Estadual de Ensino Médio Liberdade, da qual é vice-diretora e atua como diretora do Anexo I, que é anexo apenas de nome, mas, na prática, guardadas as proporções, uma escola com todos os problemas específicos.
Tudo isso me lembrou a crônica “Deixa o padre passar”, escrita e publicada no dia 13 de julho de 2011, na qual conto um simples, mas lindo e tocante episódio envolvendo crianças da Rua Maranhão, a rua em que moro, que brincavam de bola enquanto eu passava a pé rumo à Avenida Antônio Vilhena. A pureza e a simplicidade das crianças me cativam. Números capítulo 6, versículo 24 – “O Senhor te abençoe e te guarde” – para todas elas!
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 08/02/2026