O nome e o endereço
Todo texto é uma intertextualidade. Por quê? Porque reproduzimos, consciente ou inconscientemente, o que lemos. Isso é, sem dúvida, a principal razão por que muitos indivíduos têm dificuldade de escrever. Não conseguem sequer sair da primeira linha, se é que a completam. Aliás, por elementar que pareça, é bom que se diga que a dimensão da primeira linha varia de acordo com a configuração da página. Não há como fugir disso.
Intertextualidade é a reprodução explícita ou implícita de outro texto. Assim, vivemos o tempo inteiro a reproduzir, expressamente ou não, o que aprendemos ao lermos e ouvirmos algo. Rubem Alves, dentre outros predicados, grande teólogo e filósofo da educação, diz isso aí de forma muito bonita: “Eu mesmo sou o que sou pelos escritores que devorei... E se escrevo é na esperança de ser devorado pelos meus leitores.” As reticências são originais, registre-se.
Antes disso, no mesmo parágrafo, Rubem Alves escreveu: “A experiência literária é um ritual antropofágico. Antropofagia não é gastronomia. É magia. Come-se o corpo de um morto para se apropriar de suas virtudes.” Onde ele escreveu isso? Bom, como já dei o nome, vou dar o endereço. Ele escreveu isso na crônica “A beleza dos pássaros em voo...”, publicada no livro Na morada das palavras. As reticências, novamente explico, são originais.
Divaguei de propósito, como gosto de fazer. Iniciei pensando diferentemente, mas mudei de ideia. Só queria mesmo dizer que a intertextualidade é tratada no texto literário de forma distinta da como é tratada no texto acadêmico ou científico. Bem diferente mesmo. O poeta, o cronista, o contista e o romancista não citam, como é obrigado a citar o autor do texto científico ou acadêmico, nome do autor, da obra e dá página da citação.
Não sou eu quem diz isso. Platão e Fiorin, por exemplo, o fazem no livro Lições de texto: leitura e redação, citado por Fernando Pestana, na prestigiadíssima obra A gramática para concursos públicos. É comum, pois, recorrer, no texto literário, a expressões como “alguém já disse”, “como se diz”, e assim por diante. Ou, ainda, pôr entre as aspas, sem explicações, como na letra do hino nacional, o texto alheio copiado.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 12/01/2026
Alterado em 12/01/2026