Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

De cronistas, poetas e profetas

 

 

Dia 1.º de janeiro de 2026. Minha primeira crônica do ano, talvez sem gosto e sem graça. Acordei pensando nas belezas e coisas boas da vida, nas pessoas do bem (não confundir, por favor, com um certo tipo de cidadão de bem dos últimos anos), na pureza sem par da criança, na doçura inigualável do cão, no valor da amizade sem interesse. Aí parei. Tive que parar, porque fui contido pela lembrança da desonestidade, safadezas e desfaçatez dos maus políticos e da indignidade de quem os segue, apoia e defende. Achei que seria melhor ir coar um cafezinho e tomar uns goles.

 

Cronistas, poetas e profetas, às vezes, incomodam muito pelo que dizem ou escrevem. E, evidentemente, pelos incômodos causados, são malvistos pelos poderosos de seu tempo. Aludo, porém, a profetas dos tempos bíblicos, como Jeremias e João Batista, por exemplo, que pagaram caro pela verdade profetizada. Sou cessacionista, mas, vou logo avisando, não quero discutir se existem ou não existem profetas e até apóstolos nos dias de hoje. Não, não é sobre isso, como está na moda dizer. Ah, sim!... Não fui logo fazer o café: deixei para depois do almoço.

 

Jeremias, o Profeta Chorão ou Profeta das Lágrimas, foi preso inúmeras vezes por causa de suas profecias. Vivia na masmorra, coitado. E João Batista? Ah, com João Batista, a coisa foi muito pior. Se não o sabe, imagine! Teve a cabeça decepada e exposta em um prato, a pedido de uma cidadã de bem, uma famosa dama de seu tempo, pessoa da alta sociedade. Que macabro, coisa maldita! E por que tudo isso contra ele? Ousou denunciar adúlteros poderosos de seu tempo. Cidadãos de bem, sabe? Há adultérios mais escandalosos do que outros.

 

Semelhantemente, há cronistas que são chatos por demais: denunciam desmandos dos poderosos e outros malfeitos do dia a dia da humanidade. Nem é necessário dizer que, às vezes, se dão muito mal. Conheci um cronista e poeta filho da terra que, embora fosse muito competente, viveu na miséria, enquanto muitos incompetentes se locupletavam à custa do erário. Sofreu as agruras da pobreza até o dia em que partiu para eternidade, mas não se calou. Pense aí, leitor, se valeu a pena. Em homenagem e profundo respeito, não lhe citarei o nome. O leitor inteligente sabe de quem estou falando.

 

Luís Vaz de Camões e Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno, por exemplo, eram críticos mordazes. Camões fazia críticas sociais e políticas, principalmente. Gregório criticava duramente os governantes, a sociedade e a igreja. E pagaram caro por isso. Camões, a despeito de ser nosso maior poeta, além das prisões que sofreu, viveu e morreu na miséria. Outra coisa. Depois, talvez eu fale das críticas que elegantemente faziam Machado de Assis, o Machadinho ou Bruxo do Cosme Velho, e Rubem Braga, o Velho Braga. Meu trabalho de conclusão de curso da licenciatura em Letras tem por título O Papel da Crônica na Literatura Brasileira: uma análise a partir de Machado de Assis e Rubem Braga. Por hoje, é isso. Fui!

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 01/01/2026
Alterado em 02/01/2026


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