Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

A crônica e o jornal

 

Hoje são 31 de dezembro de 2025, último dia do ano, e eu queria escrever uma crônica diferente. Sei que o ano é apenas uma convenção e, em tese, tudo continuará como está no ano que vem. Isso, contudo, é apenas em tese, pois, o ano é uma convenção, mas esta, queiramos ou não, é para valer. Há, por exemplo, obrigações (e são muitas) que não poderão ser cumpridas depois. É pragmático, ninguém se iluda: muitas coisas mudam de um ano para outro. Logo, por mais trivial que pareça dizer, hoje é um dia especial e muito diferenciado dos demais.

 

Voltemos à crônica. Quero enaltecer o que nós, os cronistas, chamamos de rodapé do jornal. Não confundir com rodapé da página ou nota de rodapé. É outra coisa.  É aquele cantinho especial do jornal onde são postos os pequenos assuntos da alma, os incidentes pitorescos do cotidiano aparentemente (só aparentemente) simples. Isso é, em uma palavra, crônica. É o lugar em que o artista da palavra escrita chamado cronista põe – não raramente, com muita graça, humor e ironia – aquilo que aos olhos dos outros passaria despercebidamente e cairia no esquecimento.

 

A crônica é escrita. Às vezes, é falada, no rádio, na televisão, no canal do YouTube ou, ainda, em qualquer outro veículo. Isso, contudo, não quer dizer que não tenha sido escrita antes, física ou digitalmente. Crônica, em apertada síntese, é isso, mas não somente isso, é muito mais, pelo conteúdo. É crítica, é reflexão, é vazão existencial, é refúgio. Crítica da sociedade, dos costumes, da política, da religião, das instituições. Vazão ou extravasão subjetiva de sentimentos diversos: alegria, entusiasmo, dor, medo, tristeza, etc. Para as almas mais sensíveis, refúgio ou fuga momentânea, agradável e divertida, das coisas pesadas. É ir a um locus amoenus.  

 

“O cronista é o mais livre dos redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira pessoa sem envergonhar-se”, escreveu Affonso Romano de Sant’Anna. Adaptando aos nossos dias, acrescento que isso não vale só para o jornal, senão também para a revista, o blogue, o rádio, a tevê. E a crônica? Bom, a crônica, em qualquer um desses suportes, é, como diz sabiamente José Marques de Melo, um “artifício noticioso carregado de subjetividade, no qual os leitores mais sensíveis se refugiam para neutralizar as agruras do cotidiano”.

 

Crônica é arte e artifício. Arte como expressão do cronista e artifício como recurso ou técnica – do cronista e do leitor – para entretenimento, refúgio, luta, cobrança, enfretamento de desmandos, combate aos abusos, combate aos maus costumes, e por aí vai. Para isso, é indispensável que o leitor saiba ler o que está escrito expressamente e, mais que isso, ler nas entrelinhas e ver o que, irônica e sagazmente, se deixa implícito. Minhas saudações a meus professores do curso de Letras, na pessoa das Professoras Cristiane Furlan, Daniella Barbosa Buttler e Joseilde Maria Teles. Viva 2026!

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 31/12/2025
Alterado em 31/12/2025


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