O cofre do Dr. Rui e o cofrezão do senador
Cofre, cofrinho e cofrezão, cofo, jacá ou coisa que o valha. Falo hoje, rápida e descontraidamente, de cofres, do cofre do Dr. Rui e do cofrezão do senador da República, aquele pilhado recentemente pela PF (de Polícia Federal, não de prato feito) com o cofrinho – digo, o cofrezão – abarrotado de reais, dinheiro sujo, se não pela origem, a qual, que eu saiba, ainda não foi explicada, sujo fisicamente falando, dado o local em que fora entulhado.
Falei do cofre do Dr. Rui, não faz muito tempo. Para ser exato, na crônica “A mulher chamada Rui, o homem chamado Maria”, de 29 de novembro de 2018. Agora, do cofrezão do senador. O do senador, claro, não é cofrinho. O que, porém, importa mesmo é que ambos estavam entupidos de dinheiro. No cofre do Dr. Rui, muitos dólares; no cofrezão do senador, milhares de reais em espécie, certamente, vários exemplares do Chrysocyon brachyurus, quer dizer vários lobos-guarás.
O inusitado é que cofrinho, denominação dada familiar ou vulgarmente àquela conhecida parte da anatomia humana (embora o do senador, pela quantia de reais encontrada, não seja cofrinho, mas cofrezão), não é lugar para se guardar dinheiro nem coisa alguma. Bom, convenhamos, pensava-se que não era. Agora, os fatos mostraram o contrário, primeiramente à Polícia Federal e depois ao público. Pois é, vivendo e aprendendo.
A dúvida é se era, em ambos os casos, dinheiro sujo. Penso que era, sim. Penso e explico logo, para que ninguém me leve a mal, principalmente esse pessoal aí da laia – rectius, correligionários e defensores – do senador (pessoal, aliás, muito bravo, muito honesto e combatedor autêntico da corrupção). Os dólares eram sujos pela origem, pois desviados do erário por um corrupto muito influente da época. Os lobos-guarás eram sujos ou, pelo menos, indiscutivelmente estavam sujos, se não pela origem, pelo lugar seboso em que foram adrede escondidos.
Os fatos, com efeito, atestam insofismavelmente que não eram apenas os aloprados do Partido dos Trabalhadores e aqueles políticos do Distrito Federal apanhados em 2009 – alguém se lembra? – que guardavam dinheiro nas meias, na cueca e em outros lugares, digamos, nada convencionais. E mais, como penso que, pela ala política a que pertence, o senador pego com dinheiro naquele lugar inadequado não é corrupto, agora sei que não é somente corrupto que guarda dinheiro, seja dinheiro limpo ou seja dinheiro sujo, em locais do corpo não muito apropriados.
Sempre pensei que as cédulas e moedas do nosso dinheiro são sujas, pois ninguém lava as mãos para o seu manuseio. Pois bem. Se isso não bastasse, bastará agora, ao se manusear uma cédula – notadamente a do lobo-guará, que, pelas razões óbvias, presumo ser a preferida dos corruptos –, imaginar as meias, os cuecões e outros lugares incomuns a que, como esconderijos, ela pode ter sido submetida.
Lembrei-me da história do bêbado que se recusou a comer língua de vaca, piada que aprendi nos tempos em que era assinante e leitor da revista Playboy. Ele, com minhas adaptações, não titubeou e justificou sabiamente a recusa: “Eca! Você acha que eu vou comer uma coisa que saiu da boca da vaca? Quero, não! Quero um ovo mesmo.”
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 28/12/2025