Você escreve muito difícil
“Tu escreves difícil. Perco o interesse e paro de ler no primeiro parágrafo.” “É mesmo? Puxa vida! Tu me arrasaste (risos).” “Estou sendo sincera. Escreve um texto fácil de ler e que tenha conteúdo, que eu leio.” “Sim, tudo bem. Tens liberdade para isso. Obrigado! Muitos leitores, porém, elogiam e dizem gostar.” “Quem?” “Professores, escritores e outros. Muitos deles, professores mestres e doutores.” “Só os intelectuais.” “Ah, sim. Entendi.” Não parou aí. Seguiu-se, em dois momentos diferentes e um pouco distantes entre si, o diálogo entre o escritor e a amiga. Descontraidamente, podem acreditar.
Eis aí um trecho do longo diálogo entre mim e uma leitora amiga, de Belém. Escrevo de memória. Infelizmente, não guardei o diálogo escrito, pois, por causa da memória do celular, já quase cheia, saio apagando quase tudo. Além disso, não empreguei os travessões no diálogo, porque, em texto de crônica, acho feio o diálogo com travessões, na forma convencional. Também, de propósito, não empreguei, como deveria empregar, os verbos dicendi – também chamados de verbos de elocução ou de declaração –, necessários para facilitar a compreensão do diálogo. Foi tudo, repito, de propósito.
Crítica recebida e, carinhosamente, aceita. Muitos, eu sei, não gostam do que escrevo, pois gostariam que eu abordasse outros assuntos e adotasse estilo diferente do que adoto. Entendo e lamento, mas é assim mesmo. Tranquilo. Porque existem os que gostam e porque eu penso que, embora o alcance seja muito limitado, exerço com minha escrita uma função, a de tentar fazer que o leitor busque outros assuntos, cuide de outras coisas que não somente aquelas sobre as quais a maioria escreve por aí e, principalmente, que se interesse pelo aprimoramento do vocabulário e da língua em si. Escrevo sobre o que gosto, para quem gosta. E, acreditem, isso não é uma crítica à minha querida amiga, é só uma explicação. Costumo dizer que escrevo sobre o que me dá na telha escrever.
É lógico que quem escreve quer ser lido e, para bem além disso, quer agradar. A apreciação do leitor é valiosíssima, impagável. E, se é sinceramente elogiosa, arrazoada, melhor ainda. Isso é indiscutível, mas também é indiscutível que ninguém consegue agradar a todo mundo. Felizes os que conseguem agradar a maioria. Vou procurar melhorar sempre, mas assunto árido é assunto árido, e gosto não se discute. Fazer o quê? Gosto de direito, de literatura, de gramática, de filosofia, de ler dicionário, de desafiar o leitor a pensar, e assim por diante, coisas das quais muitos não gostam. Só que eu também não gosto de muitas coisas das quais a maioria gosta. Pode parecer absurdo não gostar de futebol, mas eu não gosto. É só um exemplo.
O episódio me lembra outro de muitos anos passados. O professor de história do primeiro ano do ensino médio, em 1995, apresentou dois livros didáticos à classe, para que esta, democraticamente, escolhesse qual seria o adotado. Esclareceu que o preferido dele era o melhor, mas tinha a linguagem um pouco mais erudita, mais difícil, e deixou que escolhêssemos. Eu votei pela adoção do livro de linguagem mais erudita e preferido pelo professor, mas não precisaria nem dizer aqui que a maioria – aliás, fora eu, todos – votou pelo livro de linguagem mais simples. Estavam preocupados com facilidade, não com qualidade. Assim foi, assim é. Eu, contudo, buscarei melhorar mais e mais. Palavra de quem não foi escoteiro.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 05/12/2025
Alterado em 11/12/2025