Eu e a bula, Cony e os ossos de Dana de Teffé
Sou um dos fascinados pela bula de remédio (pela bula papal também, por causa do latim). Já fui bem mais do que agora, pois o ser humano e as coisas mudam naturalmente com o passar dos anos, não raramente, bem mais do que se imagina. Evidentemente, mudamos: eu mudei; a bula, também. Nós mudamos. O fascínio, porém, continua. Porque as bulas de remédio são textos muito bem escritos. Vale o testemunho de Rubem Fonseca, em “Exitus letalis”, que já citei outras vezes. Claro, além do interesse literário, tenho também interesse como especialista em Direito Médico. Isso, porém, é outra história.
De novo, voltando ao assunto? Talvez algum leitor possa perguntar. Sim, respondo. Qual o problema? Já falei disso inúmeras vezes, que parece quase uma obstinação, mas não faz mal. Gosto de ser repetitivo. Aprendi com um dos meus professores que o que faz a ciência avançar é o que se repete, que cria um padrão. Vou, por fidelidade ao mestre, fazer a citação completa: “A exceção atrapalha a ciência, o que faz a ciência avançar é aquilo que se repete, que cria um padrão, que tem constância, que é possível acompanhar, comparar, medir” (Ronilson de Souza Luiz).
Professor Doutor Ronilson de Souza Luiz, meu mestre, tem o meu respeito e a minha admiração. Oficial da Polícia Militar de São Paulo, graduado pela Academia de Polícia Militar do Barro Branco, bacharel e licenciado em Letras, doutor e pós-doutor em Educação, ele foi meu professor no curso de pós-graduação em Direito Administrativo, que cursei pela Universidade Gama Filho. Voltemos, contudo, à minha quase obstinação pela bula de remédio. O que me fascina é o texto, já o disse. Não vou, pois, ao menos por hoje, dar mais explicação.
Não somente eu gosto de bula de remédio. Posso citar, por exemplo, os intelectuais Rubem Fonseca, Carlos Heitor Cony e Lago Burnett. Cony brincava, dizendo que lia bula de remédio para se sentir humilhado, pois ela fazia que ele se lembrasse de que não era coisa alguma de intelectual. Rubem Fonseca fazia coleção de bulas, até em língua estrangeira. Lia e colecionava. Às vezes, comprava um remédio apenas para pegar a bula. Se fora hoje, não precisaria, pois as bulas estão na internet. E Lago Burnett? Este, por exemplo (bem que eu poderia, por birra, escrever verbi gratia), deixou a crônica “A lição das bulas”, que reli hoje, no seu livro A língua envergonhada.
Foi por causa da releitura da crônica de Lago Burnett que voltei hoje ao assunto. Leia bula de remédio. Como texto literário (entenda), não para saber como tomar o remédio. Para isso, siga a prescrição médica. Outra coisa que nada tem quer com o assunto, Carlos Heitor Cony não se cansava de perguntar, irônica e provocativamente, nesta ou naquela crônica: "Onde estão os ossos de Dana de Teffé?" Faleceu sem a resposta. A pergunta, contudo, continua a ecoar, quase doentiamente, na cabeça de quem – seja à época dos fatos, em 1961, seja bem posteriormente, como é o meu caso – tomou conhecimento do rumoroso caso policial. Fiel a minhas manias, voltarei ao assunto (da bula). Prometo.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 30/11/2025
Alterado em 30/11/2025