O pó e o amor
“Matérias-primas de que somos feitos são duas: pó e amor! O pó nos iguala. O amor nos identifica”, assim diz a mensagem do dia 11 de novembro do livro Calendário filosófico: para viver melhor, de Gabriel Chalita. Gostei disso que ele diz (aliás, escreve). Vale a pena refletir sobre o assunto, ainda que muito ligeiramente nas limitações espaço-temporais (se é que você me entende) de uma crônica típica de canto de página, modelo que adoto, já algum tempo, em homenagem a Otto Lara Resende. Não sou obrigado ao canto de página, mas o adoto, porque o admiro.
Ah, eu sou admirador do estilo cronístico de Otto Lara Resende, tão encantadora e admiravelmente exercido, de 1.º de maio de 1991 a 21 de dezembro de 1992 (fim de sua vida, ninguém se esqueça disso) no jornal Folha de S. Paulo. Não me cansa dizer que, se eu tivesse que recomendar apenas um único livro a alguém, por mais que desejasse indicar um dos meus, indicaria, sem titubear, Bom dia para nascer, de Otto Lara Resende. Otto, para mim, foi um cronista nota 10, com elogios. Na Folha, ele escrevia brilhantemente – crônicas invariavelmente com cinco parágrafos bem distribuídos – no espaço de 34 linhas de sessenta toques que lhe reservava o rodapé da Página 2.
Pois bem. Pó e amor. Que mistura, hein! Confesso que nunca havia parado para pensar nisso, mas, agora pensando, vejo-me obrigado a concordar. Sem embargo, obviamente, da divergência. Discorde quem quiser discordar, com ou sem justificativa. Pouco se me dá, conquanto o ideal seja justificar (no direito, dizemos fundamentar) a divergência. Do ideal para o real, existem coisas e coisas que não se resumem ao libar e lucubrar de uma taça de vinho. "Eu, pelo menos, penso assim. Não sei os outros crentes", como se diz na brincadeira.
Não quero nem preciso justificar e (ou) fundamentar, senão apelando para a Bíblia. Elementar. Para quem crê, obviamente. Se o leitor ou a leitora não crê, tudo bem. O problema, se é que no seu entender ele existe, é seu. Nunca tive a intenção de convencer a quem quer que seja. Cada um com suas manias. Não estou nem aí. Quer discordar? Fique à vontade! Não precisa nem sequer justificar ou fundamentar. A crença, ou a falta dela, é sua. Morre quem crê, assim como morre quem não crê. A diferença está na perspectiva de futuro. Queiram ou não queiram. Só isso.
Que todos somos pó e ao pó voltaremos é o que me parece de mais sensato. Afinal, todos morrem. E viram pó. Ou terra, se assim você prefere. Para mim, dá na mesma, tanto faz. Afinal, “pulvis es et in pulverem reverteris”, ou seja, “és pó e ao pó voltarás”, diz a Bíblia. Não é, pois, aquele pó em que você pode estar pensando, cuidado!... E o amor? Bom, o amor identifica até a nossa existência (estou forçando, eu sei, mas o faço propositadamente). Foi Paulo, o apóstolo temporão, quem o disse (e o disse solenemente, por sinal), “se não tiver amor, nada serei”. Quer discordar? Discorde. Não me preocupo, não. Eu só queria cronicar mesmo. Só isso.
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 12/11/2025
Alterado em 16/11/2025