Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

Sungar o gongó

 

“A caixa de memórias, que cada um de nós tem, guarda pessoas e momentos. Vez ou outra, é bom visitá-la”, diz Gabriel Chalita, na mensagem de hoje, 16 de setembro, de seu livro Calendário filosófico: para viver melhor. Pois bem, a minha caixa de memórias tem, dentre outras coisas, muitas palavras que eram usadas na oralidade por meus pais e demais pessoas do nosso meio, parentes, amigos e conhecidos, numa linguagem linda, rica de brasileirismos e – ainda mais restritamente – de regionalismos do Nordeste. Hoje, visito, cheio de nostalgia, o verbo sungar e o substantivo gongó.

 

Eu sungo, tu sungas, ele sunga, nós sungamos, vós sungais, eles sungam. E assim por diante. É o verbo sungar, de saudosa lembrança dos meus tempos de criança. Aliás, não só dos tempos da infância, mas também da adolescência e da juventude, na zona rural. Lembro-me de ouvir muitas vezes minha mãe dizendo a meus irmãos mais novos (sou o mais o velho dos que se criaram, pois o primogênito faleceu com dois meses de idade): “Sunga esse gongó, menino!”, frase na qual sungar significa erguer, levantar, puxar para cima, subir. Além disso, sungar também pode ser usado com uma acepção coprológica, que não vem ao caso explicar aqui.

 

Menino pobre do meu tempo de criança não tinha calça nem bermuda, tinha gongó, um tipo de calção curto, feito de tecido ordinário. Cortado e costurado, quase sempre à mão, pela própria mãe. Calça comprida e bermuda eram luxo fora do alcance de menino pobre da roça, como eu e meus irmãos. Não encontrei nos dicionários consultados a palavra gongó com esse significado. É dicionarizada, sim, mas com outras acepções. O emprego com esse significado, contudo, existe na oralidade e, sendo assim, talvez exista alguma abonação literária que não conheço.

 

A frase “sunga esse gongó, menino” quer, pois, dizer o mesmo que “levanta esse gongó, menino” ou, ainda, “sobe esse gongó, menino”, e assim por diante. O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, por exemplo, traz esta abonação literária de Gustavo Barroso, no romance Mississípi: “Com um gesto maquinal, sungou as calças muito altas sobre a cintura.” E, é claro, eu não poderia deixar de lembrar aqui o caso de um vereador de Xinguara que, no início do mandato, em 1989, diante de uma discussão acalorada em plenário, labrocheira, brava e solenemente, lascou esta: “Eu sungo a sessão!”  E, à sua maneira, sungou mesmo (risos).

 

Sungar, como brasileirismo, é coisa bem nossa. Penso até que seja coisa de nordestinos, pois meus pais – nunca é demais lembrar – eram nordestinos. Aliás, por falar nisso, não posso deixar de homenagear aqui dois leitores especiais, irmãos de Maçonaria e amigos, homens cultos e de bom gosto, apreciadores da crônica como gênero literário, aos quais muito agradeço a leitura e os comentários sempre: Ademar Rafael Ferreira, de Jabitacá, município de Iguaracy, Pernambuco, e Julimar Siqueira de Carvalho, de Floriano, Piauí. Saudações literárias, Ademar e Julimar!

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 16/09/2025
Alterado em 17/09/2025


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