Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos


O meu tio maçom e eu

 

Era 12 de março de 2025, e eu estava, à noite, na Câmara Municipal de Marabá, para ser homenageado. Casa quase cheia. Plenário Tiago Batista Koch quase lotado. Muitas autoridades, além do presidente da Câmara, vereador Ilker Moraes Ferreira. Inclusivamente servidores do Instituo Legislativo Brasileiro, que é a escola de governo do Senado Federal. Dentre estes servidores, o Dr. Roberto Lamari, presidente da Associação de Escolas do Legislativo e dos Tribunais de Contas (Abel). Era a comemoração dos dez anos de existência e funcionamento da Escola do Legislativo de Marabá (Elmar).

 

Eu, como já disse, seria homenageado. Para ser exato, iria receber, como receberiam várias outras pessoas físicas e entidades presentes, uma moção de aplausos como colaborador da Escola do Legislativo de Marabá, que é a escola de governo da nossa Câmara Municipal. No meu caso, como ministrante do primeiro curso promovido pela entidade do Legislativo Marabaense, um curso de processo e técnica legislativa, ministrado para vereadores e servidores da Casa. Claro, eu estava muito feliz. Gosto, como todo ser humano normal, de ver reconhecido o meu trabalho.

 

Como de costume, traje preto. Amo me vestir de preto! Trajava calça, camisa, paletó e sapatos pretos. Apenas a gravata era vermelha, com um símbolo amarelo composto pelo tríplice tau dentro de um triângulo circundado por dois cachos de trigo ou coisa parecida. Tau (no grego moderno, taf) é a letra grega correspondente ao t da língua portuguesa. E, para quem não sabe, o dito símbolo é um símbolo dos maçons do Real Arco. Sou maçom, com prazer e muita honra.

 

Pois bem. Foi da gravata que me veio a maior felicidade daquela noite. Sentado na primeira fila de cadeiras da galeria, sob o som alto da música tocada pela Banda de Música da Fundação Casa da Cultura de Marabá, fui abordado por uma linda criança, de mais ou menos dez anos de idade, que se sentou, resoluta e muito confiante, ao meu lado direito e me perguntou: “Qual é o teu nome?” É lógico que, solícito, respondi: “Valdinar. E o seu?” Ela, contudo, nem se importou com a minha resposta e logo, apontando-me a gravata, mandou outra pergunta: “Você é maçom?”

 

Feliz e emocionado, respondi que sim e, obviamente, lhe perguntei por que ela sabia disso. Ela respondeu: “Meu pai é maçom.” Alegre, perguntei-lhe qual o nome dele (que, infelizmente, não gravei) e, em seguida, acariciando-lhe a cabeça, disse a ela: “Ah, então, ele é meu irmão. E eu sou seu tio!” E recebi como resposta, firme e alegre, acompanhada de um sorriso: “Eu sei!” Pronto! Eu acabava de ganhar a noite. Movida pela confiança que a Maçonaria nos proporciona, a criança, que nunca me vira antes, preferiu ficar ao meu lado, com toda a alegria e confiança, a ir para o lado da mãe, que a chamava insistentemente.

 

Não foi. Era como se ela dissesse: “Não, eu estou com meu tio. Quero ficar aqui. Estou protegida.” E ali ficou até o momento em que fui chamado para, como homenageado, sentar-me na galeria de honra. Somente aí, ela foi para o lado da mãe. Sei que isso pode parecer tolice para muitos. Para mim, porém, tem muito valor e ensinamento. É a prova do que nós, maçons, significamos para os filhos e as mulheres de nossos irmãos, respectivamente, nossos sobrinhos e nossas cunhadas. E, muito mais do que isso, demonstra a nossa responsabilidade e o nosso dever de os honrar e os proteger a todo o custo.

 

Ficou registrado em foto tirada pelo Departamento de Comunicação da Câmara, que está publicada no meu perfil do Facebook. A garotinha linda, cujo nome desconheço, está em uma das fotografias, em pé, ao meu lado. A foto foi tirada no momento em que a banda de música executava, lindamente e com muita arte, o hino de Marabá, após ter executado o hino nacional. Terminado o evento, por volta das 22 horas, eu a perdi no meio da multidão. Não tive, infelizmente, a oportunidade de conversar com a mãe dela e minha cunhada. Nem de lhes saber o nome.  

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 15/03/2025
Alterado em 15/03/2025


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