Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

A curva existencial

 

Em breve improviso no sepultamento do meu sogro, Sr. João Dias dos Santos, anteontem, dia 27 de julho de 2017, em Parauapebas, falei da curva da existência humana, que, para mim, é a curva bem acentuada de uma parábola de coeficiente negativo, cujo vértice, por isso mesmo, está acima do eixo das abscissas. Também, em homenagem de corpo presente ao meu sogro, li a crônica “Ab imo pectore, meu pai”, do meu livro A Despedida do Palacete, na qual falo do velório do meu pai, ocorrido em 20 de janeiro de 2007. O sogro é o segundo pai de seus genros e noras, assim como a sogra é-lhes a segunda mãe.

 

Pois bem. Colho do texto que escrevi há algum tempo à guisa de apresentação do meu livro Direito de Recusa do Paciente à Transfusão de Sangue e Outros Procedimentos Médicos e publiquei recentemente, tão logo assinei com a Gramma Livraria e Editora, do Rio de Janeiro, o contrato de prestação de serviços editorais referente à publicação do livro, as seguintes palavras:

 

“A morte compõe o processo vital e não é um momento, é um processo inexorável e gradativo. A vida se esvai, perceptivelmente ou não, dia a dia: a partir de determinado tempo, a cada momento morremos um pouco. A curva natural da existência é uma parábola bem acentuada cujo vértice está acima do eixo das abscissas: salvo acidente de percurso, nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos. Eis aí a sentença da qual não cabe apelação.

 

Viver com saúde é um direito de todos e proporcionar isso é dever do Estado. A terminalidade, entretanto, é parte indissociável do ciclo vital. Como último estágio da vida, morrer dignamente é um direito de todo ser humano.”

 

O gráfico da vida humana é o gráfico de uma função do 2.º grau de coeficiente negativo, cuja curva é bem acentuada. A vida humana, salvo acidente de percurso, é uma parábola de coeficiente negativo. À esquerda do vértice, em escalada ascendente, situam-se os pontos que representam os ganhos e alegrias naturais da vida; à direita, em escalada descente, os pontos que representam as perdas e tristezas mais diversas do campo existencial. Morre-se gradativa, inexorável e silenciosamente.

 

Embora as explicações sejam diversas e variem conforme a perspectiva da discussão (religiosa, filosófica, científica, etc.), a terminalidade do ser humano faz parte do ciclo vital e é inevitável. Sentimos dor diante da morte, sentimos saudade de nossos entes queridos que morrem? Sentimos, sim: é natural. Isso, contudo, faz parte da vida. A morte – conquanto a encaremos como o invencível e último inimigo, e não nos acostumemos com ela, porque a vemos como inevitável derrota – é o último estágio do ciclo vital e o completa, encerrando-o naturalmente. Deveríamos, pois, vê-la diferentemente, com outros olhos.

 

Já sofri o desenlace de pai, mãe, sogra, sogro, irmão, sobrinha, cunhada e outros parentes. Meu Deus, quantas perdas, quanta dor! Sofri, sim, a palavra é exatamente esta: sofrer. Isso, todavia, não tem o condão de estremar a morte da vida: elas se entrelaçam e se completam. Não preciso explicar. Felizes os que nascem, crescem, se reproduzem, envelhecem e morrem, porque, sem acidente de percurso, completam o ciclo vital.

 

Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 30/07/2017
Alterado em 16/11/2021


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