Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

Prefácio de “O tira na cabeça e outras formas de repressão: ouvir a própria voz e ver através da janela”, de Valdinar Monteiro de Souza

 

 

A transição entre o universo das leis e o universo das letras é uma jornada fascinante. Se no Direito a palavra é instrumento de norma e defesa, na Literatura ela se torna liberdade e criatividade. É nesse   rigor e invenção que o livro O tira na cabeça e outras formas de repressão: ouvir a própria voz e ver através da janela se move.

 

Há obras que nascem como quem abre uma fresta na parede: um pequeno gesto que, de repente, ilumina tudo. Este livro traz essa fresta. O título anuncia não apenas o que se infiltra nos dias, nas escolas, nas relações, nas ruas e até dentro de nós, mas também o que insiste em resistir. Ao longo destas páginas, percebemos que há muitas maneiras de ser interrompido, sufocado, empurrado para fora de si. Mas há, igualmente, muitas maneiras de voltar: ouvir a própria voz, ver pela janela, recolher histórias que o mundo tenta esconder.

 

As cenas reunidas aqui são experiências que, à primeira vista, parecem corriqueiras, como por exemplo, a falta de energia num domingo, o primeiro dia de um filho na escola, uma conversa divertida na feira, o sotaque de um frei francês que adotou o Brasil, o pai vaqueiro dizendo “bicho no fouveiro”, a emoção de um juiz diante da injustiça, a tristeza por um acidente na estrada, o encanto por um cajueiro centenário, a curiosidade diante de uma palavra, o amor por dicionários. Da mesma forma, crônicas como, “Dar uma volta pela feira também é cultura” e “O Dia do Profissional de Letras” revelam não só o cronista, mas o estudioso da língua, o memorialista, o leitor voraz e, sobretudo, alguém que escreve para guardar o que não quer que se perca. Nas mãos dele, cada detalhe ganha espessura, vira matéria de reflexão, memória, surpresa.

 

O autor escreve como quem convida o leitor a sentar ao seu lado. O tom é o da conversa calma, informada, generosa. A erudição aparece, mas nunca oprime; a simplicidade floresce, mas nunca empobrece. Suas crônicas embaralham com delicadeza: o saber linguístico e o saber da vida; o rigor do Direito e a leveza do humor; a memória rural e a experiência urbana.

 

Há, em todas elas, uma busca constante por sentido. Não o sentido grandioso das epopeias, mas o sentido cotidiano, aquele que se encontra na palavra certa, na lembrança que chega de repente, no gesto inesperado de humanidade.

 

Como professora de Literatura, vejo meu papel como o de oferecer ferramentas para que cada aluno encontre a própria voz. No caso do escritor Valdinar Monteiro de Souza, é notável perceber como sua experiência no Direito e sua nova jornada nas Letras se entrelaçam para construir um texto que reflete sua forma singular de enxergar o mundo. Independentemente das temáticas escolhidas, o que se destaca é o compromisso com a escrita e o desejo genuíno de compartilhar suas percepções com os leitores, seja na página Recanto das Letras, no Blog do João Carlos, seja nas redes sociais, como LinkedIn e Facebook.

 

Este livro é, assim, mais do que um conjunto de crônicas: é um exercício de escuta, de memória e de delicadeza. Uma prova de que a vida, quando narrada com atenção, revela sempre mais do que aparenta.

 

 

 

Daniella Barbosa Buttler

Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Licenciada e mestre em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professora do Centro Universitário Senac – Campus de Santo Amaro (São Paulo – SP).

Daniella Barbosa Buttler
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 08/05/2026
Alterado em 14/08/2026


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