Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

A opacidade do real
Gosto, nem sei por que, da palavra paixão. Sempre gostei. E tenho essa paixão de que tanto gosto pelo livro, como a tenho por pessoas, lugares e instituições. Com o livro, contudo, é diferente: ele nunca me trai a confiança, não me desagrada, não me decepciona, não me entristece, não me aborrece. Amo meus livros: os que escrevo e os escritos por outros, recebidos como presente ou comprados. Sempre me fiz rodeado deles.

Também tenho paixão por literatura, por inúmeras razões, as quais nem saberia enumerar. Paixão não é para ser explicada, é para ser vivida. Isso basta. “A literatura nos faz ver relações e nomear sentimentos que, de outra maneira, nunca sairiam do grande poço que é a opacidade do real”, diz, bela e sabiamente, o escritor José Luiz Passos.  Está aí, por certo, a minha principal – talvez mesmo a única e suficiente – explicação.

Tenho – faço questão de confessar – verdadeira paixão por duas escritoras brasileiras falecidas, a quem gostaria imensamente de ter conhecido pessoalmente: Clarice Lispector e Eneida de Moraes, principalmente Clarice. Quanto mais leio Clarice, mais me apaixono por ela. Clarice, que tinha formação jurídica como eu, viveu a literatura e o jornalismo. Amo seus contos e crônicas, porque ela escrevia lindamente, envolventemente. Eneida de Moraes viveu a música e a literatura. Eu tento viver o direito e a literatura.

Pois bem. Hoje é um dia qualquer de maio de 2016 que, propositadamente, resolvo omitir. É noite. Estou sozinho na minha sala de estudos. Ouço Zé Ramalho, penso na mediocridade e tantas coisas mais: mil e uma ideias na cabeça. Coisas da minha profissão no dia que se passou vêm-me à lembrança e me deixam aborrecido, mas logo passa.

Vem-me a vontade de escrever uma crônica, ainda o meu gênero literário preferido. Lembrança de Ana Miranda, uma das musas vivas da Literatura Brasileira, autora de “Deus-dará”, “Amrik” e outras obras; de Eneida de Moraes, musa paraense de outrora da crônica e da música, com “Aruanda” e “Banho de Cheiro”; de Clarice Lispector, com sua majestosa atuação no Jornalismo e na Literatura (Clarice, aliás, lembremos, da “Paixão segundo G.H.”). Lembrança especial de Sandra Neves, romancista e poetisa portuguesa, amiga mui querida, com sua poesia e seu “Homicídio na Câmara Municipal”. Lembrança de Umberto de Campos, com seu imortal cajueiro de Parnaíba, e por aí vai. Lembrança de que um dia, já faz alguns anos, escrevi uma crônica a que dei o título “Amor das árvores”.

Escrevo – como o leitor vê que escrevi – e assim, de repente, percebo que já escrevi a crônica. Sim, é claro, uma crônica. Talvez sem gosto e sem graça, como tantas outras que já escrevi, mas é uma crônica. Está escrita e, escrita, pode ser lida. Isso, aliás, me faz lembrar o que diz sobre o escritor Dashiell Hammett a escritora Lillian Hellman, no prefácio do livro de contos dele “O Grande Golpe”: “Ele lia tudo e qualquer coisa.”

É isso. Leia. Leiamos. O quê? Sei lá. Tudo e qualquer coisa.
Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 25/05/2016
Alterado em 10/06/2016
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