Recanto Literário

Qual o proveito das flores postas somente sobre o caixão? Têm mais valor as que são dadas em vida.

Textos

Estado, um trapalhão audacioso
Que pena!... As letras estão de luto: João Ubaldo Ribeiro morreu! Sim, para quem ainda não sabe (e para quem sabe também, sabê-lo não terá o efeito de alterar a realidade), o escritor faleceu de embolia pulmonar na madrugada desta sexta-feira, 18 de julho de 2014, segundo noticiado. É do curso natural da vida chegar à morte, mas ninguém se acostuma e assim ficamos inconsolados nós, todos os seus admiradores. Luto da literatura brasileira.

Há anos colunista do jornal “O Globo”, João Ubaldo deixou escrita a crônica que seria publicada pelo jornal deste domingo, dia 20, a qual, por causa de seu desenlace, foi, como homenagem, publicada antecipadamente na edição de sexta-feira. “O correto uso do papel higiênico” é o título e, como não poderia deixar de ser, constitui um primor como expressão literária e, notadamente, como crítica a este ente trapalhão e cada dia mais audacioso chamado Estado brasileiro.

Pelo título da crônica, nós, seus leitores e conhecedores da sua lavra, antevemos o teor da crônica, que, com a ironia e beleza de sempre, critica o “espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante” (isso diz ele) com que (isto digo eu) o Estado, no Brasil, anda a se intrometer na vida privada de seu povo, ao gerar abortos jurídicos como a Lei da Palmada e outros absurdos das searas jurídica e legislativa por exemplo.  

“O Estado, no Brasil, é um brincalhão” – escrevia, com sabedoria e muita justiça, em maio de 1958, o grande Rubem Braga, na crônica “Um Mundo de Papel”. Agora digo eu: Bons tempos, aqueles; era brincalhão, mas já não o é! Foi-se, há muito, o tempo em que, por inofensivas, as trapalhadas, as medidas legislativas, judiciárias ou executivas risíveis, as safadezas e outras estripulias do Estado brasileiro, por qualquer de seus poderes ou instituições, poderiam ser classificadas como atos brincalhões. Agora, não: são, não muito raro, atos audaciosos, trapalhões e perigosos.

O Brasil, notadamente na esfera legislativa, mas não somente nela, tem-se deixado possuir – sem tirar, mas podendo pôr – pelo agir desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante. Fazem corar de medo e vergonha certas decisões de magistrados na (por certo, intencionalmente má) interpretação e aplicação da Constituição e das leis, assim como certos atos legislativos, para ficar somente nesses dois poderes e não falar de muitos atos executivos ou oriundos de outras instituições do Estado.

Rubem Braga e João Ubaldo Ribeiro estavam cobertos de razão, o Estado, no Brasil, tem obrado mal, muito mal, em todos os sentidos e segmentos. Eu diria, fazendo um trocadilho tolo talvez, que o Estado, no Brasil, é um disentérico em estado terminal por causa do agir vergonhoso e deletério na pessoa de seus agentes e instituições. Algumas delas mais que as outras.

Atos legislativos como a absurda e desnecessária Lei da Palmada, bem como certas decisões teratológicas alicerçadas em interpretações heterodoxas, para aqui dizer o mínimo, conferidas à Constituição e às leis por juízes e tribunais fazem pensar que se caminha, a passos largos, para a insegurança jurídica. Adeus técnica jurídica, nas espécies técnica legislativa e técnica de interpretação e aplicação! Meu Deus, que medo, que apreensão!

Concluo com a advertência de Isaías, profeta hebreu que, para quem crê, deixou escrito: “Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão” (Is 10.1)! Para quem crê – repito. Quem não crê, sem problema. Vai cair no pau da goiaba do mesmo jeito. Opa, olha a Lei da Palmada! Ah, essa só funciona contra os pais ou responsáveis, não é para todos. Ainda bem? Ou ainda mal?... Sei lá! Danou-se.
Valdinar Monteiro de Souza
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 18/07/2014
Alterado em 21/07/2014
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras